sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

SEXTA-FEIRA, 18 DE DEZEMBRO DE 2009:"REVENDO"

Em reprise para todo o país, a novela que tem emocionado dezenas de gerações de espectadores: “A Descoberta do Brasil”. Em horário nobre, a fidalguia lusitana encena a virilidade da ibérica península, mescla de mouros e romanos, na personagem do aventureiro benfazejo. São cinco séculos de arroubos a enaltecer a “ilha” em que se plantando tudo dá. Vera Cruz de ontem, descoberta no acaso premeditado; ocaso do pau asiático brasil, que no Mundo Novo ganhou letra maiúscula; pouco caso dos “selvagens” que saborearam sardinha em bispo. Oh! Álvares...Outro Pedro também diria fico, pelo bem do povo e - óbvio - facilidade geral da majestade. Pedra amarela minando na derrama, esquartejando alferes, separando a Marília do Dirceu. Caramuru, salvo pela sua magreza, cevado pelos Tupinambás, nos dá um lindo capítulo, fundando tão nobre estirpe ao desposar Paraguaçu. Mas, quantos outros naufrágios, quantos sobreviventes ainda teremos? Estandartes bandeirantes preando os bichos do mato, buscando preciosas pedras para além das Tordesilhas. Todas as raças, todos os credos, na baía, nos planaltos de todos os santos. Dê ouro para o bem do Brasil, para o bem da Inglaterra, para o bem de quem nos quer tanto bem. E Pedro, o segundo? Pobre menor abandonado, refém da cobiça além-mar! Leopoldina virou trem, virou marquesa a consorte filial, honrado a índole lisboeta. Santa Maria! Pinta e Nina quase passam por aqui. E se passassem? Deixavam inscrições rupestres para Caminha plagiar, quem sabe. Coisa louca! Maria, a rainha, coitada, interditada enquanto o sexto João sacava no Brasil o seu próprio banco. Portos abertos, escancarados, ancorando o comércio do comum mercado europeu. Mauricéia desvairada ainda deve a Nassau o requinte cultural nas plagas americanas do Recife. Hereditárias capitanias, hereditárias manias de retaliação. Heróis dos latifúndios, é sua a glória do desenvolvimento e do progresso; apesar de todas as vicissitudes decorrentes dos azares históricos, esta terra ainda há de tornar-se um imenso Portugal, há de ser um império colonial, mas mãos de intrépidos desbravadores descendo da bacia do Tietê o Paraíba do Sul, cruzando a serra da Mantiqueira, rumando Jundiaí e Moji, além do Salto de Urubupungá, para alcançar o interior; construindo a geografia no novo continente, vilas ricas expandirão vastidões pelas sendas mato-grossenses, unindo o amazonico planalto à foz do lendário rio, pelo Topajós, Tocantins e Madeira. Quando esplendor! Portugal é espanhol? Sessenta anos de hispânica coroa, a dividir a riqueza nacional! Quem descobriu o Brasil? Quem meteu os pés no brasil? A Europa cá veio dançar valsas vienenses e ainda trouxe d’África o lundu, temperado com pimenta do reino. Quando açúcar com café nas usinas e nas lavouras dos senhores engenhosos! A Ásia cabe aqui. Venham todos, queremos vocês. Venham genoveses, florentinos, o Bráz vos espera. Venham sírios - libaneses mascatear, no sertão que vira mar, rios de dólares. Nós somos um povo gentil, coroação e braços abertos para o mundo. Temos norte e nordeste, sul e sudeste, noroeste e sudoeste este imenso. Somos presidencialistas, somos parlamentaristas, republicanos e monarquistas. Somos qualquer coisa, somos todas as coisas a um só tempo, porque - pluralistas - não discriminamos ninguém. Venham, o trono está vago a qualquer tempo, pois há quinhentos anos rendemos homenagens, não seria agora que inventaríamos ser brasileiros. Desculpem-nos a dívida externa, não foi nossa intenção, não pretendíamos ser pobres e dar tanto trabalho. Pagaremos. São suas as nossas reservas, em pau-brasil com seca nordestina, em cana-de-açúcar dos coronéis, em borracha dos seringais florestais, em café dos barões, em mão-de-obra de pau pra toda obra. Nossos portos ainda estão abertos à navegação, mesmo que seus aeroportos estejam fechados à nossa imaginação. (Marcus Moreira Machado)

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