Situada na origem da literatura grega. a epopéia homérica da "Odisséia", inspirada no labor e nos perigos, possui momentos de rara exaltação do ser humano e da dignidade que imagina-se o seu maior atributo. E é na recepção de Ulisses pelos Féaces que essa característica fica registrada, quando Alcino, interrompendo o aedo, ao perceber que Ullisses derramava de suas pálpebras comoventes lágrimas, adverte: ... 'todo homem, nobre ou miserável, possui, desde nascença, um nome, que os pais lhe deram ao vir ao inundo. Dize, pois, qual a tua terra, o teu povo, a tua cidade. para que nossas naus dotadas de inteligência lá te reconduzam.'
Decorridos séculos na história da civilização não apenas Ulisses é um mito, mas também a humanidade parece ser exclusivamente legendária, tendo perdido, ao longo do tempo, o seu real sentido. Hoje, Dizimados por milhares de guerra sucessivas, o 'homem' é simultaneamente vítima e algoz da sua própria cupidez.
A 'guerra', um fenômeno político social, como ensina J. B. Magalhães. 'foi outrora fator essencial para impulsionar os progressos da civilização... A partir, porém, do momento em que os progressos da civilização deram à humanidade consciência de que constituía um todo fundamentalmente homogêneo... a guerra deixou de ser fator estimulante da evolução'. Dessa maneira, se a moral na época de Homero esteve reduzida à admiração pela bravura guerreira por um lado, por outro também foi alicerçada na fidelidade à amizade, na reprovação da malidicência, da traição, da covardia e da arrogância.
No entanto, o que dizer da moral contemporânea? O que comentar sobre uma civilização que, a despeito de suas realizações científico-industriais, tem eleito como básico elemento da -sua suposta prosperidade a guerra, e dela, como alvo, o 'homem'?!
Os orientais, notadamente os chineses, acreditam no ser humano vocacionados para a Paz, atribuindo à supremacia dos seres divinos o destino da humanidade, recomendando, então. os ensinamentos dos seus sábios a resignação como norma de conduta. Essa 'filosofia' um tanto peculiar magistralmente foi ilustrada por Pearl Sydentricker Buck, a primeira mulher no continente americano a ser agraciada com um Nobel, o de Literatura. Em seu romance "A Estirpe do Dragão, narração da história da família de Ling Tan, um humilde lavrador chinês que vê sua terra ser assolada pela guerra, e sem entender a atrocidade, serenamente aceita o acontecimento, Pearl Buck diz, através do personagem: "Os deuses fizeram-nos, os seres humanos, de carne macia que pode ser ferida facilmente, porque eles nos destinaram, para o bem e não para o mal. Se eles fossem capazes de ver o que os homens fariam uns contra os outros, ter-nos-iam dado cascos, corno os das tartarugas, nos quais pudéssemos esconder as nossas cabeças e todas as outras partes macias do corpo."
A sabedoria oriental é antes de tudo uma advertência à estupidez que sistematicamente tem desfigurado a raça humana. Insensatos, preferimos privilegiar a ancestralidade beligerante dos primórdios da civilização humana, decaindo sempre, ao invés de procurarmos apressar o destino a todos nós reservado pela Criação - a comunidade supranacional apartidária, unida no congraçamento de diferenças étnicas, econômicas e culturais.
O sideral espaço por nós já encontrado, por mais grandioso, ainda é exíguo, se comparado à uma outra imensidão em quase nada explorada: a nossa alma. A viagem para o interior da grande morada espiritual vem sendo há muito adiada, pois nenhum ser extraterreno imaginável poderá assemelhar-se à estranha criatura residente no âmago de nós mesmos, o que certamente pressentimos e queremos evitar. Mas, inevitável, aproxima-se o momento da decisão, quando, para não sucumbirmos, necessariamente escolheremos a paz como exclusiva condição da nossa sobrevivência.
"Esperança" tem sido compreendida como um exagerado otimismo de pessoas desprovidas de senso da realidade. E, definitivamente não é isso! Na esperança existe um ponto e um prazo marcado, um lugar e um tempo determinado. Sensatez. então, será aguardarmos o triunfo da única soberania - o governo da equanimidade, a primazia do altruismo e o império da benevolência.
Mas, haverá êxito nesse projeto se existir disposição em construí-lo, ânimo em vê-lo além do mero esboço, vontade em percebê-lo além da nossa humana fragilidade, como um desígnio divinal, traçado por mãos mais habilidosas, num intento superior aos planos débeis dos estratagemas que tão somente tem assegurado a cada um de nós a própria perplexidade diante do que se nos afigura inaudito.
A religião, assim, consagrará o 'homem' como templo do 'homem', em perfeita sincronia com o Deus que quer habitar a sua criação. fecundando toda uma raça que, agora renitente, não é dona de nada a não ser da saga inspirada na presunção da maioridade.
Esperança, deveras, é a ambição de todos quantos crêem na possibilidade como promessa a ser cumprida, porque lúcida, porque consciente, porque sincera.(Marcus Moreira Machado)REMETENTE e DESTINATÁRIO alternam-se em TESES e ANTÍTESES. O ANTAGONISMO das CONTRADITAS alçando vôo à INTANGÍVEL verdade.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
DOMINGO, 14 DE DEZEMBRO DE 2008:'VIAGEM AO CENTRO DO UNIVERSO".
Situada na origem da literatura grega. a epopéia homérica da "Odisséia", inspirada no labor e nos perigos, possui momentos de rara exaltação do ser humano e da dignidade que imagina-se o seu maior atributo. E é na recepção de Ulisses pelos Féaces que essa característica fica registrada, quando Alcino, interrompendo o aedo, ao perceber que Ullisses derramava de suas pálpebras comoventes lágrimas, adverte: ... 'todo homem, nobre ou miserável, possui, desde nascença, um nome, que os pais lhe deram ao vir ao inundo. Dize, pois, qual a tua terra, o teu povo, a tua cidade. para que nossas naus dotadas de inteligência lá te reconduzam.'
Decorridos séculos na história da civilização não apenas Ulisses é um mito, mas também a humanidade parece ser exclusivamente legendária, tendo perdido, ao longo do tempo, o seu real sentido. Hoje, Dizimados por milhares de guerra sucessivas, o 'homem' é simultaneamente vítima e algoz da sua própria cupidez.
A 'guerra', um fenômeno político social, como ensina J. B. Magalhães. 'foi outrora fator essencial para impulsionar os progressos da civilização... A partir, porém, do momento em que os progressos da civilização deram à humanidade consciência de que constituía um todo fundamentalmente homogêneo... a guerra deixou de ser fator estimulante da evolução'. Dessa maneira, se a moral na época de Homero esteve reduzida à admiração pela bravura guerreira por um lado, por outro também foi alicerçada na fidelidade à amizade, na reprovação da malidicência, da traição, da covardia e da arrogância.
No entanto, o que dizer da moral contemporânea? O que comentar sobre uma civilização que, a despeito de suas realizações científico-industriais, tem eleito como básico elemento da -sua suposta prosperidade a guerra, e dela, como alvo, o 'homem'?!
Os orientais, notadamente os chineses, acreditam no ser humano vocacionados para a Paz, atribuindo à supremacia dos seres divinos o destino da humanidade, recomendando, então. os ensinamentos dos seus sábios a resignação como norma de conduta. Essa 'filosofia' um tanto peculiar magistralmente foi ilustrada por Pearl Sydentricker Buck, a primeira mulher no continente americano a ser agraciada com um Nobel, o de Literatura. Em seu romance "A Estirpe do Dragão, narração da história da família de Ling Tan, um humilde lavrador chinês que vê sua terra ser assolada pela guerra, e sem entender a atrocidade, serenamente aceita o acontecimento, Pearl Buck diz, através do personagem: "Os deuses fizeram-nos, os seres humanos, de carne macia que pode ser ferida facilmente, porque eles nos destinaram, para o bem e não para o mal. Se eles fossem capazes de ver o que os homens fariam uns contra os outros, ter-nos-iam dado cascos, corno os das tartarugas, nos quais pudéssemos esconder as nossas cabeças e todas as outras partes macias do corpo."
A sabedoria oriental é antes de tudo uma advertência à estupidez que sistematicamente tem desfigurado a raça humana. Insensatos, preferimos privilegiar a ancestralidade beligerante dos primórdios da civilização humana, decaindo sempre, ao invés de procurarmos apressar o destino a todos nós reservado pela Criação - a comunidade supranacional apartidária, unida no congraçamento de diferenças étnicas, econômicas e culturais.
O sideral espaço por nós já encontrado, por mais grandioso, ainda é exíguo, se comparado à uma outra imensidão em quase nada explorada: a nossa alma. A viagem para o interior da grande morada espiritual vem sendo há muito adiada, pois nenhum ser extraterreno imaginável poderá assemelhar-se à estranha criatura residente no âmago de nós mesmos, o que certamente pressentimos e queremos evitar. Mas, inevitável, aproxima-se o momento da decisão, quando, para não sucumbirmos, necessariamente escolheremos a paz como exclusiva condição da nossa sobrevivência.
"Esperança" tem sido compreendida como um exagerado otimismo de pessoas desprovidas de senso da realidade. E, definitivamente não é isso! Na esperança existe um ponto e um prazo marcado, um lugar e um tempo determinado. Sensatez. então, será aguardarmos o triunfo da única soberania - o governo da equanimidade, a primazia do altruismo e o império da benevolência.
Mas, haverá êxito nesse projeto se existir disposição em construí-lo, ânimo em vê-lo além do mero esboço, vontade em percebê-lo além da nossa humana fragilidade, como um desígnio divinal, traçado por mãos mais habilidosas, num intento superior aos planos débeis dos estratagemas que tão somente tem assegurado a cada um de nós a própria perplexidade diante do que se nos afigura inaudito.
A religião, assim, consagrará o 'homem' como templo do 'homem', em perfeita sincronia com o Deus que quer habitar a sua criação. fecundando toda uma raça que, agora renitente, não é dona de nada a não ser da saga inspirada na presunção da maioridade.
Esperança, deveras, é a ambição de todos quantos crêem na possibilidade como promessa a ser cumprida, porque lúcida, porque consciente, porque sincera.(Marcus Moreira Machado)quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
SÁBADO, 13 DE NOVEMBRO DE 2008: "VERBO"
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
SEXTA-FEIRA, 12 DE DEZEMBRO DE 2008:
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
QUINTA-FEIRA, 11 DE DEZEMBRO DE 2008:"SAL DE FRUTA"
Eis os limites à que nos reduziram: externamente, a pressão do neocolonialismo; aqui dentro a evidência do coronelismo por mandato, confundindo lei com ordem-de-serviço.
A aritmética de um e de outro é ficção, é surreal, é ilusionista , Steven Spielberg, Salvador Dali, David Coperfield. Valor nominal e valor real são tratados como uma coisa só, o mesmo número; comemora-se a queda vertiginosa da inflação para percentuais mínimos enquanto a miséria grassa em geométrica. Os indicadores econômicos orientam contribuintes na desorientada bússola da reivindicação social; e o movimento sindical senta no rabo porque não aprendeu a fazer outras contas senão as do patrão .
O país tropical, que tanto se orgulha de não ter terremoto nem morro de ventos uivantes , faz vista grossa ao “abalo sísmico” com “C” de cebola, provoca fendas e grotas na sua sociedade “extratificada” com “X” de “maucon-néx” róliudiano. O que fisiologicamente obriga a nação a ser ‘rép’; falando e escrevendo sem vírgulas , ansiosa por chegar lá , aonde a classe operária vai ao paraíso . Temos visconte - biscoito e chocolate; temos felino - gato siamês, xifópago, sete vidas e um destino; de cinema não temos o novo , ainda que por aqui Deus e o diabo esteja na terra do sol; do italiano temos uma certa inclinação mafiosa para desejar ter nascido na Calábria e comer o espaguete alheio; do francês nem Godard, apenas a vaga lembrança de um 14 bis sobrevoando Paris pelas mãos de um refinado Dumont.
Você já foi à Bahia ? Então não vá .Barra por barra, farol por farol , Rio de Janeiro continua lindo ( Alô, alô, aquele abraço ! Alô, alô, eu me desfaço ! ), tem Teresa da praia que não pode ser minha nem sua também. ( E a garota de Ipanema, mora hoje em Vigário Geral, Lava roupa todo dia, que agonia ? ) .
São Paulo, meu irmão de fé, meu amigo, meu camarada lenitivo ( nada , mas nada mesmo a ver com Lenin), não é mais da garoa, é submersa nas torrentes das paixões políticas que vão para o esgoto entupido da plebe rude. Não fume quando vier para cá. Nem pise na grama do Pacaembu, nem se esqueça, jamais, de fazer aquilo a que já está habituado desde o primeiro plano sazonal da temporada de caça aos famintos: aperte os cintos e sinta “uma-lufada’ de ar oxigenando os seus pulmões ecológicos como a rosa de Nagasáki, sempre que descer na liberdade. Liberdaade, liberdaade... abre as asas sobre nós...nas chuvas, nas tempestades, nas inundações...!!
ACM não é nome de empresa, é de empresário-senador da república dos guaianases, aimorés, txucarramães (?), do serviço de proteção à Funai. Não confunda sigla com frase, essa última há uma no seu pavilhão auri-verde tetra, seleção canarinho apreendido na alfândega por excesso de alpiste importado-contrabandeado do Tio Sam .
Eis os limites da fronteira da Ilha fantástica de Vera Cruz , que também se notabilizou filmando chanchadas, em co-parceria com Atlântida. Eis os confins do bye, bye, Brasil , onde eu mato a minha sede. Eis que de repente, não mais que de repente, em Teotônio Vilela os técnicos-nutricionistas do poder (eu tenho à força !!)público descobriram uma fórmula de salvar criancinhas esfomeadas: alimentando-as. Eis que é chegada a hora de bradar “Viva Zapata” aos astecas mais próximos dos maias. Que bonita camisa, Fernandinho ! É nova do século passado ?
Não só a pimenta do vatapá é indigesta. O dendê para quem não está acostumado, é tão indigesto quanto esse virado-à-paulista, mineiro, piauiense, capixaba, potiguar , gaúcho ... pois que Babel fica estrategicamente no Planalto Central, bem ali atrás do morro, onde eu corro num segundo começo a pensar. Por isso, não deveria faltar, jamais, nunca mesmo nem no varejo nem no atacado, sal de fruta. E, com tanta acerola, pitanga e tamarindo , esse imenso parque hortifrutigranjeiro da Fazenda Modelo não deveria deixar de privatizar as estatais de sal de fruta tropicais, evitando a indisposição reinante de quatro em quatro anos .
Você decide: ou se desliga de uma vez por todas -plim, plim - ou muda de canal. O que não dá mais pra segurar é essa asia , esse mal-estar, esse estômago nas costas de quem tem costas larga. A reforma tem que ser de base: ou você se cuida, relaxa e goza com a cara-de-pau que são aqueles outros, ou você muda de time. Se bem que não haverá diferença, você será sempre um gozador. Não é, baby ?
Afinal, há quem goste, e não são poucos, desse cardápio inspirado nos mais renomados gourmets, de Felipe Gonzales a Ernesto Zedillo, dessa mesa farta da pajelança nacional. Ou o sertanejo não é antes de tudo um forte, um bravo ?
Afinal, eis o final, the end, the happy end do american way of life da Doutrina Monroe, de Jefferson e da América para os americanos. Atrás do trio-elétrico só não vai quem já morreu. Na ressaca a gente toma sal de fruta .
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
QUARTA-FEIRA, 10 DE DEZEMBRO DE 2008:"ESPELHAR".
TERÇA-FEIRA, 9 DE DEZEMBRO DE 2008:"PROSSEGUIR".
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
SEGUNDA-FEIRA, 8 DE DEZEMBRO DE 2008: "A ORGANIZAÇÃO DA FOME"
O Estado brasileiro decididamente não tem cumprido o seu papel democrático. Nele o bem-estar individual não é prioridade porque a ditadura política sobreveio a econômica, gerando o lamentável fenômeno social da fome.
Já Lin Yutang discernia as razões de um regime a consignar os objetivos deste ou daquele governo no panorama mundial: "Não se pode negar que do ponto de vista do Estado, organizado para a guerra e para a conquista, o totalitarismo tem tudo o que se diga a seu favor, mas do ponto de vista do indivíduo como a meta final visada pela civilização, e para o propósito de fluir as bençãos ordinárias da vida, ele não tem nada que se diga em seu apoio".
O Brasil, no caso, nem Estado tem, pois que , subjugado, é satélite artificial a orbitar na economia mundial voltada para o máximo lucro. "Nestes últimos anos, a era um tanto brutal da luta pelo lucro sem consideração pelo próximo vem se modificando, cada vez mais rapidamente, em direção a outra era social, na qual a liberdade, tanto política com econômica, começa a ser considerada como um direito inalienável de todo ser humano", ponderou Josué de Castro em seu magnífico ensaio "Geopolítica da Fome". Nosso país parece não ter sentido ainda a transição para a modernidade, onde a superação do tabu da fome assegure ao brasileiro a superior condição que deveria ter sobre os institntos. Não há que se falar, então, em Estado, quando nem se quer dominamos o problema comum a qualquer espécie sobre a terra, racional ou não, - a fome.
É o mesmo Josué de Castro quem adverte: "Foram fatores de natureza econômica especial que esconderam aos olhos do mundo feias trajédias como a da China, onde, durante o século XIX, cerca de 100 milhões de indivíduos morreram de fome, por falta de um punhado de arroz, ou como a da Índia, na qual 20 milhões de vidas humanas foram destruídas por esse mesmo flagelo, nos últimos 30 anos do século passado."
Que fatores na economia podem determinar a rendição do ser humano à barbárie da fome? Pois, vejamos. No presente século, em nome dos princípios da boa administração empresarial, a visar a maximização de seus lucros, os oligopólios, através de extensa multiplicidade de contratos particulares dividiram o mundo em países desenvolvidos e subdesenvolvidos, conforme bem observou Kurt Rudolf Mirow, também ele uma vítima do que denominou "A Ditadura dos Cartéis". Ao Brasil faltou disposição em recusar o jogo que lhe foi imposto pela ordem econômica mundial, ditada segunda as normas restritivas dos cartéis. É oportuno verificar que "com a liquidação proposital de sua própria estrutura industrial, que os outros países cuidadosamente preservaram, o Brasil entregou seu destino as mãos de pessoas cujos os interesses de certo não coincidem com os seus e , vivendo há mais de 11.000 km de distância, comandam gerentes locais das corporações chamadas multinacionais os "local white help" brasileiros, e decidem a sorte e o bem-estar de nosso povo".
Então, é de se perguntar: quem ou o quê governa o Brasil? o Brasil é de fato governado ou é apenas administrado?
Vivemos constantemente ao senso comum, num reconhecível paradoxo: somos a nona economia do mundo, mas padecemos no estigma da fome. Contraditoriamente, à uma incipiente democracia interna sobrepõe-se um inequívoco "totalitarismo"multinacional. Aqui o favorecimento às corporações estrangeiras submeteu o país a execrável dependência, rompendo com o desenvolvimento auto-sustentado, outrora verificado, em que, por esforço próprio, indústrias sob o controle nacional fundamentaram a prosperidade nacional.
O escuso mundo dos interesses econômicos, a privilegiarem minorias dominantes, oculta as razões mais fortes da fome no planeta. A produção, a distribuição e o consumo do produtos alimentares, processando-se indefinidamente como puros fenôminos econômicos respondem mais positivamente aos exclusivos interesses financeiros dessas minorias. Mas, contrário disso, são, antes, fenômenos de alto interesse social, a merecerem especial cuidado e tratamento no princípio do bem-estar coletivo.
A manipulação da economia é hoje poderosa a arma na desestabilisação de regimes políticos, mais eficaz que a guerra convencional. O poder de fogo dessa arma moderna reside "utilização de níveis de preços inflacionários acordados" contra os que se "opõem aos anseios do grande capital internacional, organizado sob a forma rígidos cartéis".
Condicionar, pois, a emacipação econômica do Brasil (no que diz respeito ao combate à inflação) a mera boa vontade das partes envolvidas no processo de produção e de consumo é desprezar a necessidade de conhecimentos científicos na explicação do funcionamento da economia internacional, articulada através dos oligopólios. Desconhecer essa realidade é exigir otimismo de quem de início já joga pra perder.(Marcus Moreira Machado)
DOMINGO, 7 DE DEZEMBRO DE 2008: "PAIXÕES DA PLEBE RUDE"
Segundo Platão, a alma, que emana das esferas superiores, se localiza na matéria afim de impor a esta a lei da razão. No estado atual do mundo, entretanto, a alma platônica, em lugar de se mostrar consciente do seu destino e da sua alta origem, deixou-se de tal modo impregnar pelas inclinações e incitações da vida dos sentidos que o “Eu ”físico a absorveu, submetendo-a inteiramente às suas exigências inferiores. O homem chama razão à força central do ser individual; mas, no dizer de Mefistófeles, o homem só dela se serve para se revelar ainda mais bestial que a fera. A força política e a vontade de poder têm hoje sido desenvolvidas com o propósito de regulamentar um gigantesco mecanismo de egoísmo e monstruosa covardia. Não se respeita um só direito individual, desses, que influindo como verdadeiras forças morais criadoras, se projetam no meio social como elementos de equilíbrio do conjunto, e representam o papel de agentes de refinamento das condições de vida coletiva. O que vemos imperar é o princípio do isolamento, deslocado do todo, longe de agir como fator de ligação coletiva, de unidade superior. A satisfação dos apetites de vingança entregam, assim, homens públicos aos instintos de luta brutais, verdadeiros espartanos que são. Descortina-se um espetáculo de dilaceramento de paixões, insufladas e atiçadas umas contra as outras.
Presume-se dos estadista um indivíduo que, totalizando os valores do seu tempo, faz da sua vida uma unidade de tal modo dependente das outras unidades concorrentes do conjunto social, que cada uma delas nele se completa, a despeito de suas características particulares. A destreza política, por sua vez, é precisamente aquela que concilia na sua ação coordenadora, na sua aspiração para a unidade, o maior número de antíteses. No plano dessa terrível força de diferenciação, que cada um de nós traz dentro de si, como o irredutível do nosso próprio egoísmo, é que é chamado a operar o homem de Estado.
Os empreendimentos de ordem política não se realizam com o concurso de índoles vulgares, de aventureiros dominados de ambições imediatas. A política exige do indivíduo que a serve uma alta dose de espírito de sacrifício. As responsabilidades do poder, delas não nos desempenhamos sem a renúncia a vários bens e vantagens, que tornam agradável a existência do homem particular.
O que no momento observamos, nas campanhas plebiscitárias, são políticos sucumbirem ao frenesi e às convulsões das suas paixões pessoais, quando tudo é devastado pelo instinto cruel da revanche que os arrebata. Todos, exacerbados, exibem, com perfeita candura, as riquezas colossais dos seus tesouros de boas intenções para a elevação moral do Brasil. O Ocidente atingiu, não há dúvida, uma concepção impessoal do governo, que é exercido por homens normais, como um instrumento de justiça e de prosperidade coletiva. No entanto, o Brasil ainda entende como governo um aparelho de opressão do indivíduo contra o indivíduo. Portanto. Pode-se delinear o supremo orgulho que alguns políticos tem em ser brasileiro. Seu nacionalismo se traduz bem vivo no modo como acolhem todas as iniciativas estrangeiras. Pretendem introduzir em nosso país uma mentalidade de Primeiro Mundo, desprezando o contexto sócio-político econômico nacional. As tecnologias do Primeiro Mundo, por exemplo, que aplicamos às nossas indústrias, já vêm todas elas aperfeiçoadas, assim como os capitais que aqui investimos são fruto de gerações mais habituadas à economia nos gastos do que nós, e dispostas a deles receberem um juro muito mais baixo do que aquele que praticamos com o nosso dinheiro. A influência do fator econômico no progresso da nacionalidade e no bem estar físico e moral do povo é inquestionável. E o esforço que a classe política nacional terá de desenvolver nesse sentido independe, no momento, de sistemas e formas de governo. (Marcus Moreira Machado)terça-feira, 2 de dezembro de 2008
SEXTA-FEIRA, 5 DE DEZEMBRO DE 2008: "A MISÉRIA NOSSA DE CADA DIA"
A miséria é um hábito. E um péssimo hábito.
Gerações de brasileiros acostumados a viver mal, vemos a riqueza como algo muito distante de nós, em cada condizente com os padrões de qualidade. Desse hábito surge a crença de que neste país só têm prosperidade os que de forma desonesta ganham a vida e, dessa maneira, fazem fortuna. Ignorantes de pai e mãe, muitos de nós ou foram educados politicamente no condicionamento de uma esquerda xenófoba, que só vê a destruição econômica do Terceiro Mundo como consequência inevitável e fatal do sucesso do Primeiro Mundo, ou foram criados, opostamente, na farsa de que o estrangeiro é sempre melhor, acreditando dever em tudo ser imitado.
Não por outra razão ou encontramos uma enorme massa amorfa, propensa a aceitar como suas, realidades inseridas em contextos em tudo diferentes do seu, ou percebemos uma minoria restrita à teorização de políticas estranhas àquela grande massa, no messianismo pueril da intelectualidade forjada em modelos também alienígenas.
Absolutamente, há falta de identidade!
O brasileiro já nasce pobre, e aprende e linguagem do infortúnio com a mesma facilidade com que aprende a falar, a andar, a ler e a escrever. E como tudo que aprende, aprende mal, não entende porque é assim tão miserável.
Opulência e luxúria são coisas distintas. No entanto, a eiva do caráter nacional reside na supressão do bem individual em nome de um lacônico e infundado sentimento comunitário. Como se pauperismo fosse nossa verdadeira e única vocação, nos acomodamos à mais extrema penúria imposta por castas sociais pretensamente nobres e melhor dotadas intelectualmente. Contraditório, mas ao mesmo tempo em que admiramos dos líderes a sua abastança, liderados cultuamos a idéia da riqueza pecaminosa, a ser evitada por nós. Há razões históricas em tais condutas, onde as frustrações pessoais costumam ser amenizadas no sucesso dos chefes e guias. Como explicar a aparente identificação do súdito com seu rei, do governado com seu governante?
Na sugestionada impossibilidade de um bem-estar geral, sobrevivem os vulgos no pálido e fugaz reflexo do esplendor alheio.
Uma revolução real ocorre muito mais com o concurso de idéias que com a propagação de ideais. Nenhuma alta aspiração pode ser melhor do que a opinião particular. Privilegiar, pois, a representação mental de cada um é alcançar a identidade pessoal. Na falta do reconhecimento dos caracteres próprios e exclusivos de cada indivíduo, prevalece a enganosa aproximação entre os carentes e os copiosos. Toda perfeição concebível jamais é compatível com a utilidade dos conceitos mais imediatos. Representação não traduz-se necessariamente em mediação; delegar a outrem o amplo poder de intervir, é também sujeitar-se ao cerceamento do próprio intelecto. E, quanto maior a concentração de prestígio, tanto menor a possibilidade de emancipação coletiva.
Uma revolução de costumes sempre foi mais prodigiosa que um espírito belicoso. Afinal, o melhor dos Beatles não foi propriamente o rock e sim a atitude de inconformismo de um John Lennon.
Inconformar-se, eis a questão! A sublimidade não está mais na sublevação que na controvérsia. Uma vez instalado o princípio do contraditório, poderemos divisar a natureza dos acentuados contrastes entre a miséria da maioria e o fausto da minoria. Inequivocamente, entenderemos a artificialidade dessa mesma natureza, no caminho lógico e seguro da auto-valorização. E a miséria nossa de cada dia deixará de ser, então, o substrato da cultura brasileira.
(Marcus Moreira Machado)
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