Na Torre de Babel da Globalização, só uma língua
é por todos conhecida. Porém, poucos são
fluentes nesse idioma: o Capital.
(Marcus Moreira Machado)
REMETENTE e DESTINATÁRIO alternam-se em TESES e ANTÍTESES. O ANTAGONISMO das CONTRADITAS alçando vôo à INTANGÍVEL verdade.
Sob o império da mediocridade, observa-se, na atualidade do pensamento nacional, a evidência de elemento perniciosos e deletérios que, trocando figurinhas entre si, consagram a intolerância e a crueldade para com tantos quanto aspirem as novas formas, quer nas artes, quer na política, ou, ainda, naquela que é considerada uma superestrutura do Estado - o Direito.
Afastados da prevalência da realidade ou da observação sobre a fantasia, registra-se a tendência para fazer consistir o pensamento mais nos vôos arrojados da imaginação do que no estudo minucioso da realidade.
Já Almeida Garrett, em Portugal do século XIX, asseverava: “... O tom e o espírito verdadeiro português, esse é preciso e forçoso estudá-lo no grande livro nacional, que é o povo e as suas tradições, as suas virtudes e os seus vícios, e as suas crenças e os seus erros”.
Obviamente, a reação do grande escritor lusitano aos motivos literários clássicos, já então demasiadamente sovados, encontraria eco entre intelectuais de militância várias. Entendendo a literatura como mais um reflexo de cada momento histórico, não nos será difícil ou arriscado concordar com a exigência de critérios mais abertos, quando se pretende acurada análise de um povo num exato momento de sua particular história.
Ou, como doutrinava Victor Hugo: “... Não há regras nem modelos além das leis gerais da natureza... além das leis especiais que, para cada composição, derivam das condições próprias a cada assunto”.
Nem o rigor dos “românticos”, a propugnar volta aos modelos mais genuinamente nacionais, nem o hiper-realismo de sonhadores e suas utopias. Mas, muito menos o elogio-mútuo dos que insistem em forjar valores limitados e, por isso mesmo, torpes. Quem sabe o regionalismo, o psicologismo e o neo-realismo possam resgatar a essência do pensamento nacional, e com ela traçar mais verdadeiramente o perfil do homem brasileiro.
Intolerável, isso sim, é o pedantismo de seletos grupos que se auto-declaram mentores de uma nova era, de um porvir seguro e promissor. Detentores de retórica singular, aprisionam a nação como mero objeto de tolas elocubrações. Apoiados pela cumplicidade de uma enferma e inexorável multi-mídia (apêndice, aliás, da intelectualidade arrogante!), protejam-se uns aos outros, no restrito “club” dos bem dotados.
Não raro o irrealismo desses apóstolos da nova ordem surge com messiânica redenção à fome nacional, de miseráveis hordas exortadas à prática de teorias em tudo alienígenas ao próprio meio e às tradições peculiares.
Não raro o oportunismo do elogio-mútuo consagra normas irreais como legítimas, calcando na subserviência a respeitabilidade da falsa liderança.
Como em terra de cego quem tem um olho é caolho, poucos conservam, ainda, ingenuidade e autenticidade para exclamar: “o rei está nu!”. Ao contrário, via de regra a má índole é acobertada por láureas, num duvidoso mérito de academicismo.
Preferível então, o “Elogio da Loucura”, de Erasmo de Roterdam, mordaz, ao descaramento, à imprudência dos cínicos modernos.
Pior de que determinadas loucuras não são mais que o absurdo e caótico se revelando em interstício de lucidez. Cultuar essa normalidade esquálida, em incontroversa aceitação, é admitir anônima neurose como cânone inalienável, é eleger o elogio-mútuo corifeu de nossas individualidades.
Precisamos tanto de um discurso sofista quanto de quinze minutos de fama. Esta última, como bem expressou o “gênio” da pop-art, Warhol, de há muito já conquistamos.
Agora que o futuro já chegou, possibilitando a simultaneidade de fatos, opiniões e interpretações, não há mais vez para a sujeição ao minimalismo elitista. Aproveitar do que há de melhor em todos os sistemas políticos, jurídicos e artísticos, será encontrar no ecletismo reformulação básica da democracia, aqui entendida como a protagonização ampla e individual, muito acima de insistentes coadjuvantes da nova Escola do Elogio-mútuo.
A miséria é um hábito. E um péssimo hábito.
Gerações de brasileiros acostumados a viver mal, vemos a riqueza como algo muito distante de nós, em cada condizente com os padrões de qualidade. Desse hábito surge a crença de que neste país só têm prosperidade os que de forma desonesta ganham a vida e, dessa maneira, fazem fortuna. Ignorantes de pai e mãe, muitos de nós ou foram educados politicamente no condicionamento de uma esquerda xenófoba, que só vê a destruição econômica do Terceiro Mundo como consequência inevitável e fatal do sucesso do Primeiro Mundo, ou foram criados, opostamente, na farsa de que o estrangeiro é sempre melhor, acreditando dever em tudo ser imitado.
Não por outra razão ou encontramos uma enorme massa amorfa, propensa a aceitar como suas, realidades inseridas em contextos em tudo diferentes do seu, ou percebemos uma minoria restrita à teorização de políticas estranhas àquela grande massa, no messianismo pueril da intelectualidade forjada em modelos também alienígenas.
Absolutamente, há falta de identidade!
O brasileiro já nasce pobre, e aprende e linguagem do infortúnio com a mesma facilidade com que aprende a falar, a andar, a ler e a escrever. E como tudo que aprende, aprende mal, não entende porque é assim tão miserável.
Opulência e luxúria são coisas distintas. No entanto, a eiva do caráter nacional reside na supressão do bem individual em nome de um lacônico e infundado sentimento comunitário. Como se pauperismo fosse nossa verdadeira e única vocação, nos acomodamos à mais extrema penúria imposta por castas sociais pretensamente nobres e melhor dotadas intelectualmente. Contraditório, mas ao mesmo tempo em que admiramos dos líderes a sua abastança, liderados cultuamos a idéia da riqueza pecaminosa, a ser evitada por nós. Há razões históricas em tais condutas, onde as frustrações pessoais costumam ser amenizadas no sucesso dos chefes e guias. Como explicar a aparente identificação do súdito com seu rei, do governado com seu governante?
Na sugestionada impossibilidade de um bem-estar geral, sobrevivem os vulgos no pálido e fugaz reflexo do esplendor alheio.
Uma revolução real ocorre muito mais com o concurso de idéias que com a propagação de ideais. Nenhuma alta aspiração pode ser melhor do que a opinião particular. Privilegiar, pois, a representação mental de cada um é alcançar a identidade pessoal. Na falta do reconhecimento dos caracteres próprios e exclusivos de cada indivíduo, prevalece a enganosa aproximação entre os carentes e os copiosos. Toda perfeição concebível jamais é compatível com a utilidade dos conceitos mais imediatos. Representação não traduz-se necessariamente em mediação; delegar a outrem o amplo poder de intervir, é também sujeitar-se ao cerceamento do próprio intelecto. E, quanto maior a concentração de prestígio, tanto menor a possibilidade de emancipação coletiva.
Uma revolução de costumes sempre foi mais prodigiosa que um espírito belicoso. Afinal, o melhor dos Beatles não foi propriamente o rock e sim a atitude de inconformismo de um John Lennon.
Inconformar-se, eis a questão! A sublimidade não está mais na sublevação que na controvérsia. Uma vez instalado o princípio do contraditório, poderemos divisar a natureza dos acentuados contrastes entre a miséria da maioria e o fausto da minoria. Inequivocamente, entenderemos a artificialidade dessa mesma natureza, no caminho lógico e seguro da auto-valorização. E a miséria nossa de cada dia deixará de ser, então, o substrato da cultura brasileira.
Em nenhum tempo, os contrastes entre o rico e o pobre foram tão resolutos, tão violentos como presentemente. Os economistas que afirmam nas suas obras científicas que o pauperismo é tão velho como a humanidade, socorrem-se de sofismas. Há pobreza absoluta e pobreza relativa. A pobreza absoluta é a do homem que não pode inteiramente satisfazer suas necessidades reais, ou somente as satisfaz de maneira insuficiente, isto é, aquelas que se originam de suas funções vitais orgânicas, dificultando-lhe por consequência a alimentação suficiente, a qual quando a obtém, é com sacrifício do repouso e do sono de que seu organismo tem necessidade para não definhar prematuramente. A pobreza relativa, pelo contrário, é a impossibilidade de satisfazer as necessidades artificialmente criadas, que não são condições necessárias da vida e da saúde, e que o indivíduo não sente e não compreende senão comparando seu modo de vida com o dos outros. Cada indivíduo julga-se pobre à sua maneira; o operário, se não pode fumar ou beber aguardente; a lojista, se não pode vestir-se de seda e cercar-se de uma mobília supérflua; o homem de profissões liberais, se pela aquisição de um capital não pode libertar-se do cuidado inquietador de acautelar o futuro de seus filhos ou o decanso de seus últimos dias. Esta pobreza é evidentemente relativa, no sentido da lojista, por exemplo, parecer rica ao operário, e do professor julgar magnífico o modo de vida que ao aristocrata, criado na abundância e gozando de todas as comodidades, pareceria pobre; mas esta pobreza também é subjetiva, enquanto só reside na imaginação do indivíduo e não arrasta de maneira alguma o enfraquecimento real das condições necessárias da existência, e com ele o definhamento do organismo. Em uma palavra, não é pobreza fisiológica. Ora, o velho Diógenes já mostrou que podemos passar bem, quando satisfazemos facilmente as necessidades do corpo. À pobreza absoluta ou fisiológica não aparece como fenômeno constante senão em consequência da civilização elevada e enferma. No estado primitivo e mesmo em grau inferior de civilização, ela é inconcebível. O homem primitivo não se submete humildemente à miséria, luta com ela e vence-a, ou então sucumbe prontamente.
A pobreza absoluta é igualmente inconciliável com a civilização que não transgrediu ainda o ponto de vista das necessidades físicas. A civilização elevada, finalmente, condena à pobreza absoluta uma multidão deveras numerosa, favorecendo o engrandecimento das cidades em detrimento da população rural, o desenvolvimento da grande indústria em prejuízo da produção animal ou vegetal, e, criando um proletariado que não possui uma única polegada de terreno, o impele para fora das condições da existência natural do homem, e terá de morrer de fome no dia em que deparar fechadas as fábricas e as oficinas.
O proletariado atual das grandes cidades não tem antecedentes na história; é produto da nossa época. O proletário moderno é mais miserável do que era o escravo na antiguidade, porque não é alimentado por um senhor, e se tem sobre este a vantagem da liberdade, devemos confessar que esta liberdade é principalmente a de morrer de fome.
Não é no comunismo que se deve procurar a solução dos problemas econômicos; ele só é estado natural nos organismos coletivos muitos inferiores, e não pode de maneira alguma aplicar-se a uma forma mais elevada da vida como é a sociedade humana. Não é somente para o homem, mas também para a maior parte dos animais, que a posse individual constitui estado natural. O modo de vida que torna necessários a previdência e o cuidado do futuro conduz à expansão do sentimento da propriedade e ao desenvolvimento do instinto de adquirir uma posse própria.
Forçoso é voltar a tratar da renovação da organização econômica. Um só princípio fundamental deve dominar a sociedade, e este princípio tem de ser o individualismo. A posse é organizada individualmente. Àquele para quem tal estado não é o alvo ideal do desenvolvimento social, não há outra coisa a fazer senão resolver-se por outro princípio, a solidariedade. Da escolha dependerá a ruína ou o aprimoramento da organização social.
(Marcus Moreira Machado)
O “marketing” está hoje incontestavelmente a serviço das ideologias ou mesmo da falta delas. É dessa maneira que instituem-se e extinguem-se órgãos, ministérios, secretárias ou conselhos conforme a conveniência em se “lançar no mercado” essa ou aquela maior ou menor estratégia de “consumo” de uma determinada idéia. Para que se adquira credibilidade junto aos “consumidores” cuida/se de definições com substrato legal, respaldadas num localizado contexto sócio-econômico. Sob o aspecto formal, os “produtores” propagam como legítimas, aspirações nem sempre estabelecidas na reciprocidade, porém unilaterais, mais fruto do condicionamento próprio às campanhas publicitárias, cujo o objetivo invariavelmente é o de estimular uma grande maioria passiva.
Há um dado momento, então, em que os requintes das abstrações contrastam veementemente com situações concretas, desprestigiando mesmo o direito, a justiça e a lei, e descaracterizando o sentido original da proposta inicial. Trata-se nesses casos da mais pura manipulação, em que elites buscam predomínio pela centralização, arvorando-se defensora de direitos que não são os seus, mais que elas crêem dever zelar, porque acreditam-se mais e melhor preparadas.
É o caso, ao que tudo indica, do Conselho Tutelar, para o cumprimento dos direitos da criança e do adolescente, em Jacareí. Pois, pretendendo o “monopólio” no que diz respeito às situações onde jovens e infantes estejam envolvidos, bradando soluções exclusivas, “detentora” de “direitos autorais” sobre o assunto, uma “casta” procura manobrar a lei quando essa não frutifica os resultados esperados a época da sua formulação.
Não por outro motivo, coerentes apenas com o seu “marketing político”, essa elite, tendo alardeado a necessidade da instituição de um Conselho Tutelar na cidade para pretexto desse “monopólio”, não conseguindo, no entanto, a maioria que desejava na representação cobiçada, imediatamente faz ouvidos moucos ao reclamo popular. E, em surpreendente atitude da mais acintosa manipulação noticia os conselheiros eleitos que foi adiada a posse dos mesmos, em virtude de “falhas” na lei municipal, que deverá ser reformulada em alguns dos seus artigos, considerando que o dito conselho nem “legalizado está”.
Tudo feito na trama da hipocrisia, oculta sob o manto do “aprimoramento”, quer/se adiar, também, a execução de medidas eficazes de proteção às crianças e adolescentes e, de resto, à toda sociedade. Em desrespeito à comunidade, que se fez representar elegendo os seus conselheiros, anuncia-se à boca pequena a postergação do Conselho Tutelar consolidado. E, pior, com o débil argumento de que a lei precisa ser aperfeiçoada.
Ora, se o Brasil dependesse da perfeição definitiva da sua lei maior, a Constituição, não seria ainda, e não seria nunca, um país e uma Republica Federativa. É imperioso que se observe a reformulação paulatina das leis, de acordo com o desenvolvimento da sociedade a que elas se destinam.
Inadmissível a alegação dessa elite protetora do “frascos de comprimidos”, com o perdão da palavra. Se a mesma lei que desencadeou o processo de eleição, ainda em dezembro do ano passado, já não “serve” mais, o que dizer então da problemática das crianças e dos adolescentes do município? No mínimo, pelos equívocos propositais, pela preterição tendenciosa do “marketing” da coisa pública , a única solução, a mais viável, para a questão do “menor abandonado”, por exemplo, será a de dar ouvidos à glosa popular: “O jeito é esperar o ‘menor’ crescer; aí ele fica um ‘maior’ delinqüente”. Sarcástica, talvez, mas menos cínica, provavelmente.
Eis, no caso do adiantamento da posse dos conselheiros tutelares de Jacareí, uma demonstração de que a “organização da sociedade”, pura e simplesmente nem sempre condiz com o princípio maior da justiça, visto que a “lei” está a servir um grupo organizado em torno dos seus próprios interesses, apenas.
Provavelmente, o mestre Ruy Barbosa inspirou-se em Santo Agostinho quando, em discurso proferido a bacharelandos, advertiu-os: “. . . pesai bem que vos ides consagrar à lei num país onde a lei absolutamente não exprime o consentimento da maioria, onde são as menorias, as oligarquias mais acanhadas, mais impopulares e menos respeitáveis as que põem e dispõem as que mandam e desmandam em tudo; a saber: num país onde, verdadeiramente, não há lei, não há moral, política ou juridicamente falando”
E, não menos provável, Jacareí, provinciava que é, tem as suas oligarquias.
(Marcus Moreira Machado)
Mesmo na meia-idade, ainda acredito nas fantasias do tipo “mocinho-bandido”: empaquei na adolescência. Imagino donzelas dependendo da minha bravura no combate a dragões fantásticos e, pobre mas valente, faço juras de amor e fidelidade, em heroísmo pueril. Assim, um tanto quanto aventureiro, sou cavaleiro medieval partindo em cruzadas contra a ignorância dos bárbaros; de mim depende a redenção dos povos sucumbidos à truculência selvagem dos déspotas colonizadores. Em meus devaneios eu enxergo a proximidade de um novo amanhecer, quando somente a minha justiça ditará o império do que imagino ser o bem. Sou honesto, belo, virtuoso... serei o rei tão querido e ungido; lutei aonde havia trevas... minhas cicatrizes são a minha credencial, o meu passaporte ao reino dos justos.
Os meus opositores, - que nem isso são, porque sou eu o dono de toda e qualquer situação - pretendem a minha desgraça e por isso me injuriam, porém não se dão conta de que os meus seguidores são cada vez um maior número e não contestam o meu comando (também eles sonham, deliram como eu). Hoje, nem mesmo militar de cinco estrelas é mais admirado que a antes estrelas solitárias do meu pavilhão vermelho como o sangue de Jesus Cristo.
Pouco fui à escola: sempre fui menino precoce (até hoje não deixei de ser esse menino que mora no coração de cada um de nós), razão pela qual sou autodidata e me basto; afinal, nasci vocacionado para conduzir, pois que a imensa maioria nasceu limitada a me seguir. Líder, incontestavelmente um líder é o que eu sou: o homem da venda, o empresário de aço, o metalúrgico da foice e do martelo, os clérigos, o sacristão... todos me reconhecem um líder nato. Eu não preciso e nem devo trabalhar, que trabalhem outros em meu lugar, ocupado que estou em organizar o trabalho deles. Sou por demais inteligente para me ocupar das mazelas do dia-a-dia, e “mereço a comida que você paga por mim”(quem mais teria tanto tempo e tanta competência para discursar a seu favor? Hein?)
Aos que ainda relutam, àqueles que insistem em chafurdar o meu nome na lama, apenas respondo: quem ri por último é porque não entendeu a piada. Eu tenho carisma, sabe disso a legião dos meus discípulos espalhados pelos sindicatos, pelas agremiações, associações e congêneres e similares. É só perguntar nas bases e todos ouvirão em uníssono: “hoje é o dia da caça, hoje é o dia da caça e do caçador”.
De que outra maneira poderia um brasileiro miserável (como, via de regra, é todo brasileiro), assim como eu fui, progredir, não fosse a minha capacidade em entender tanto de fome a ponto de - imitando um Padre Cícero - miná-la com pãezinhos, tudo sobre a inspiração da estrela-guia? Nem só de caviar vive o homem... buchada e estrogonófe (assim mesmo, bem abrasileirado, como gosta um cabra porreta!) também faz parte da vida; scotch escocês não é má idéia... a cachacinha é pra render homenagens aos antepassados, que não votam, mas seus netos sim.
E, mais que tudo, eu sou mesmo é muito macho! E é disso que esse país está precisando, de gente disposta a se indispor sempre que Villares e Palmares servirem de cântico. Mas ou menos assim: “... são lutas de ontem e de hoje também...”, “... nosso Deus fica ao lado dos pobres...”, “...É Deus que nos vem libertar. Contigo fazendo aliança”.
Eu sei muito bem que as más línguas dirão que estou a fazer conchavo com Deus. E o que é que tem isso, se Deus é brasileiro? Alguém duvida?! Então, qual outra”! Terra de Nosso Senhor” canta “À merencória luz da lua”, tem “coqueiro que dá coco”? Não moro num país tropical, abençoado por Deus?! E, não viram, “todo mundo tá feliz, todo mundo pede bis”? Eis a razão da minha volta: vocês como eu-empacados na adolescência.
Não há nada melhor que um dia após o outro... e outro, e outro, e outro. Assim, como uma eleição após a outra... e outra, e outra, e outra. Quem me espera sempre alcança. Mesmo que seja de volta ao passado! Mesmo que tudo já tenha se passado, em Algum lugar do passado. Leste europeu decididamente não é nordeste brasileiro e Lechwalesa, um anticomunista apanhou feio no corredor polonês. Não é o nosso caso: do Oiapóque até o último pau-de-arara somos todos socialistas.
Lula-lá, seja aonde for. Lula-lá, nos moinhos-de-vento passionais do nosso genuíno latin-lover do Araguaia. Lula-lá, honestos até o fio do bigode, fanáticos até a última barba mulçumana xiita. Alatoialulá!
O sertão vai virar mar... Vira, vira, vira/vira, vira, vira/ virou!!!
O mar vai virar sertão... Vira, vira, vira... Uai, ó “xente”, por que não?
(Marcus Moreira Machado)
Nem tudo está perdido. Não se pode e nem se deve crer que as pessoas não mudem, jamais, de opinião, e assim com o passar dos anos, passem a observar sob prismas antes ignorados ou desprezados o que até então julgavam por pronto e acabado, insuscetível de reavaliação. Afinal, aos oitenta para uns, aos trinta para outros, a vida fica mais velha e mais sábia, revelando-se mesmo surpreendente no que pode oferecer, e menos exigente do que se supunha. Irredutível nem será bom sinônimo convicto, pois superveniência é, de fato, a ocorrência plausível para o comum mortal. Não sem motivo, no decorrer dos anos, é surpreendente o caminho que se nos apresenta um dado instante para, em seguida, quase atônitos, nos depararmos com súbita nova rota do anterior percurso.
E tudo que se nos afigurava como certeza é substituído, fazendo ruir idéias e ideologias aparentemente sedimentadas em indestrutível amálgama, forjando-se, a partir daí, conseqüente sucessão de possibilidades, como num alerta ao destino indefectível.
Uma pequena dose de bom senso obriga uma resposta imediata à fragilidade inerente a cada um de nós seres humanos; nenhum questionamento, por sério e oportuno, compreenderá conclusões inevitáveis. Dessa forma, não há exatamente alternância de opiniões, porém acréscimos pré-conceitos circunstanciados e efêmeros. Pois, definitivamente, a regra é a indefinição e a sabedoria é a exceção.
Acreditar-se pleno, crer-se íntegro, quando se desconhece os desígnios impróprios á nossa natureza limitada, é superestimar uma capacidade subordinada a intervenções do imponderável. Da nossa essência sabemos muito pouco, conhecimento esse que nos reduz a meros espectadores, ainda que a nossa pretensão seja alcançar do infinito as suas fronteiras. Ora, semelhança não será, jamais, igualdade; e o muito conquistado pelo homem em toda a história de sua civilização não foi mais que a simples manipulação de conhecimentos básicos. Criaturas, eis o que somos; criadores, o que ingenuamente pretendemos ser.
A negação da nossa humanidade como exclusivo atributo a cada homem na face da terra tem-se operado através da transposição dos valores positivos alcançados em séculos marcados pelas guerras e pela mais franca injustiça social, em desprezo á luta pela civilização, substituindo-a pela barbárie originária, num paradoxo entre evolução e progresso. No entanto, é justamente em nome do aprimoramento que a megalomania se instala, na procura de uma tão vaga quanto inútil perfeição do homem, pretensamente elevado à condição de criador.
Enquanto a tecnologia assume patamares jamais imaginados, conferindo à raça humana uma duvidosa característica situada entre a genialidade e a supremacia, perde o homem, de forma abrupta e cruel, a sua própria "alma", em espetacular derrocada do aperfeiçoamento moral que paulatinamente vinha sedimentando como atributo distintivo da sua real singularidade; maravilhado com as múltiplas possibilidades de transformação da natureza a partir da sua intervenção, não atenta, porém, para o perigoso distanciamento entre o progresso da técnica e o retardamento do espírito, já escravo de si mesmo, ignorante e imperdoavelmente alheiro à instalação do mais insidioso descalabromoral.
Sistemas e formas de governo que não considerem a distribuição das efetivas melhorias, conseqüentes da investigação científica sistematizada, correrão, independentemente de cor partidária por cunho ideológico, risco crescente de morte prematura, corroídos na fragilidade de estruturas não comprometidas com a fraternidade universal como projeto pioneiro de vida concreta. Alimentar a revolta é duvidar da insanidade como efeito imediato da segregação; e se há hoje algo a temer, sem dúvida pouco se compara ao impérvido social fundamentado na restrição à grande maioria, impedida de compartilhar das benesses para as quais contribuiu confinada agora ao submundo da demência típica dos excluídos.
Mudar de opinião, reavaliando teses antes formuladas na exacerbação e na arrogância será perseguir uma sabedoria que, muito embora além de nós mesmos, é seguramente mel melhor modelo de sociedade, porque respaldado nos limites de quem, eterno aprendiz, enxerga na prudência o caminho mais seguro a ser percorrido, afastando-se prematuridade deveras inconciliável com progresso humano.
(Marcus Moreira Machado)
No homem atual tanto a liberdade como a capacidade de pensar caíram de nível. As condições materiais a que estão submetidos os homens de nosso tempo o reduzem a tal ponto que a sua vida psicológica se acha fortemente prejudicada, e, mais ainda, a sua capacidade de fazer cultura. A luta pela vida, proveniente da insegurança do sistema econômico que torna a sobrevivência difícil, obriga as pessoas a se agregarem em número cada vez mais crescente em aglomerações de trabalho. O desligamento do ser humano para com aquilo que é o seu próprio chão constitui um atentado e uma violência contra a liberdade e, daí, contra a cultura. Esta sofisticação da atual vida urbana, com todo o seu moderno sistema de produção, roubou do homem a ligação com a natureza que é essencial à cultura. O excesso de ocupações é a regra básica na vida da maioria das pessoas. Os indivíduos não vivem mais como seres humanos, mas apenas como trabalhadores. E as consequências disto dentro do campo educativo são visíveis. Os pais não conseguem dar a devida assistência aos filhos, deixando de propiciar-lhes o seu natural desenvolvimento. Desta forma, os indivíduos, colaborando com o processo de produção ou sofrendo-lhes as consequências, tornam-se cada vez menos habilitados à cultura; tornam-se dispersivos, incapazes de fazer desenvolver a si mesmos.
Há um fenômeno em nossos atuais meios de comunicação de resultado altamente lesivo para o desenvolvimento da cultura. É a ação reflexa que os indivíduos - já dispersivos e incapazes de concentração - exercem sobre aqueles órgãos. Em vez de proporcionarem cultura, eles sucumbem à lógica de demanda: servem apenas a clientes sedentos de futilidades. Perdido o hábito de exercer a capacidade reflexiva e de criação, o indivíduo cria uma barreira em volta de si mesmo, impedindo a sua expansão enquanto ser. Passa, então, a viver com esta barreira. No trato com o semelhante resulta uma conversação em terceira pessoa. Dá-se valor a um assunto, não porque ele tem significado, mas porque ele é a notícia do momento. Não se procura aprimorar uma idéia e sim passá-la adiante. As pessoas não se encontram para se verem envolvidas diante de um ideal comum, mas para uma conversa sem maior comprometimento.
O trabalho especializado de hoje não fornece uma visão do todo. O trabalhador não tem mais o sentido de sua unidade, pois conhece apenas um aspecto daquilo que ele mesmo faz. O perigo espiritual das especializações atinge, de maneira particular, o ensino. Os encarregados de instruir a juventude já não possuem aquela visão universal que os habilite a fornecer aos jovens a conexão entre os vários ramos do saber.
Na impessoalidade do relacionamento humano, a primeira grande consequência é a total desumanização. Esta impessoalidade é fruto do isolamento. As pessoas se esbarram uma nas outras, mas realmente não se encontram. Falta, assim, muito pouco para a completa desumanização da vida. E isto é muito prejudicial para a cultura.
A necessidade de que estabeleçamos uma nova visão do mundo, a partir de nós mesmos se faz urgente, como urgente é romper com as interpretações vigentes, com a desnorteada realidade que nos cerca. É preciso revigorar princípios e idéias gastas, ultrapassadas. A regeneração da cultura só ocorrerá quando em cada um dos indivíduos se formar uma nova concepção de vida, para, em seguida, alcançar a orientação da coletividade. Sempre onde a coletividade exerce mais influência sobre o indivíduo do que este exerce sobre ela, instala-se a decadência. Sociedades - capitalistas ou socialistas - que desprezaram o raciocínio individualizado, conheceram ou conhecerão a tragédia da desorganização social, sucumbindo suas culturas.
É dentro de cada um, única e exclusivamente, que pode surgir o sentido da vida.