Eu pretendi ser “ombudsman” de uma instituição que deveria ser o baluarte da democracia nacional. Não direi “ledo engano “, pois que sempre estive ciente das inequívocas contradições no seio da corporação”(alguns advogados não abrem mão , jamais , desse secular jargão). Então , hoje qualquer atitude arbitraria da O A B reagindo ao meu inconformismo não me causa espécie. Pois, esclerosada, a Ordem vive no presente um passado supostamente de gloria e honradez, ainda sob uma vaga reputação dos cursos de direito em Olinda e Recife e por exclusiva mentalidade provinciana - à sombra das emboloradas arcadas franciscanas.
Duas coisas causam asco a quem procura decência; o político dizendo que é necessário ter jogo de cintura, sem verdadeiramente se posicionar, e o profissional que, a tudo quanto entende conveniente ocultar, lança do subterfúgio mais conhecido como ética profissional.
Olvidando os deveres do homem para com Deus e a sociedade (esse sim o verdadeiro conceito de “ética”!) alguns -não poucos- diretores e conselheiros da OAB insistem em promover , através de uma presunçosa comissão de ética, um obsoleto e discricionário “Tribunal da Santa Inquisição”.
Invariavelmente , observamos esses “fiscais da pátria” investindo contra autoridades legalmente constituídas, sempre em nome da defesa da cidadania, dos direitos humanos etc, etc,. Essa patriotada, tão típica a instituições senis que recusam a terapia da revitalização, consagra, em alianças como a da OAB e CNBB, o ranço de quem somente faz cortesia com o chapéu alheio. E na bacharelandia em que se tornou o Brasil nota-se inconstância e debilidade até na adoção do vocabulário: ora a linguagem usual é o truncado “ecomomês”, ora o substitui a retórica pomposa e camuflada do “bacharolês jurídico”.
Em se tratando da Ordem dos Advogados do Brasil, a máxima positivista de Conte esta francamente exposta. Quer dizer, a entidade está mais para “ordem e progresso”, o que significa a ordem em primeiríssimo lugar, e secundariamente o progresso dos seus representados. O que falta é os pés no chão, descobrir que somos, antes de mais nada, brasileiros, advogados ou não. E como o mar não esta para peixe, é fundamental no tratamento geriátrico da OAB revalorizar o profissional do direito na exata grandeza do seu tamanho: nem maior nem menor, apenas mais um trabalhador que para sobreviver tem muito a exigir de si mesmo.
Se a OAB não aceita críticas isso é bastante freqüente em quem pós graduou-se em criticar. Afinal, não por mera coincidência mais de 60% dos parlamentares brasileiros são bacharéis em direito, e também eles via de regra desconhecem a crítica enquanto ciência, rebaixando-a ao nível de redes de intrigas. Justamente em nome da lisura é que se tem cometido o descalabro moral da nossa sociedade, quando respaldadas num incerto conceito de tradição, instituições várias fazem ouvidos moucos ao rifão de domínio público - “se tempo de casa fosse experiência burro seria dono de olaria”.
Não raro advogados buscam na comparação com a classe médica uma improvável justificativa para o seu reconhecimento enquanto profissionais. Se os médicos “ganham bem”(o que nem sempre é verdade), por que também não eles? É o próprio causídico assumindo a sua “inferioridade”, frustrado, pois quando ainda criança (e brasileiro, somente) acostumou-se com a falsa idéia de que a Medicina era curso da burguesia, e que Direito o curso do plebeu. Não é assim? Então por que papai, mamãe, vovô e vovó querem o filho, o neto formando um “promissor juiz, um brilhante promotor”? não é pelo imaginado “status” dessas carreiras?! O advogado quer ser tratado por “Dr.”, sem ao menos diferenciar credencial de real conhecimento adquirido. Pois, não é preciso ser diplomado em nada para ser “Doutor Honoris Causa”, distinção conferida aos que possuem sabedoria, independente de sua formação regular.
E a OAB, assentada na empáfia do “doutorismo” acadêmico, nada enxerga além do seu próprio nariz; quando muito o que você é a sua narcisista imagem refletida no lago da insensatez. Porém, esse comportamento em nada é surpreendente, ao contrário, em tudo condiz com o perfil da cultura brasileira, em que o deslumbramento pelas aparências está acima do bom senso e do racional.
Sócrates preferiu tomar cicuta quando teve oportunidade de um “sincero” arrependimento. Não sou socrático, e não engolirei goela abaixo sanção alguma vinda de quem eu não reconheça como meus representantes. Este país ainda tem uma Constituição, e ela é superior às veleidades corporativistas da OAB. Os “prepostos” da entidade em suas subsecções devem responder pela instituição; se algo não vai bem cá embaixo, algo vai muito mal lá em cima. Finalmente, prestigiar a entidade é preferir “ordem” como sinônimo de método e preterir “Ordem” como classe de honra instituída por governo supremo. Prestigiar a OAB é propugnar uma ORDEM COM PROGRESSO.
(Marcus Moreira Machado)
REMETENTE e DESTINATÁRIO alternam-se em TESES e ANTÍTESES. O ANTAGONISMO das CONTRADITAS alçando vôo à INTANGÍVEL verdade.
domingo, 24 de janeiro de 2010
TERÇA-FEIRA, 9 DE FEVEREIRO DE 2010: "HONORIS CAUSA"
Eu pretendi ser “ombudsman” de uma instituição que deveria ser o baluarte da democracia nacional. Não direi “ledo engano “, pois que sempre estive ciente das inequívocas contradições no seio da corporação”(alguns advogados não abrem mão , jamais , desse secular jargão). Então , hoje qualquer atitude arbitraria da O A B reagindo ao meu inconformismo não me causa espécie. Pois, esclerosada, a Ordem vive no presente um passado supostamente de gloria e honradez, ainda sob uma vaga reputação dos cursos de direito em Olinda e Recife e por exclusiva mentalidade provinciana - à sombra das emboloradas arcadas franciscanas.
Duas coisas causam asco a quem procura decência; o político dizendo que é necessário ter jogo de cintura, sem verdadeiramente se posicionar, e o profissional que, a tudo quanto entende conveniente ocultar, lança do subterfúgio mais conhecido como ética profissional.
Olvidando os deveres do homem para com Deus e a sociedade (esse sim o verdadeiro conceito de “ética”!) alguns -não poucos- diretores e conselheiros da OAB insistem em promover , através de uma presunçosa comissão de ética, um obsoleto e discricionário “Tribunal da Santa Inquisição”.
Invariavelmente , observamos esses “fiscais da pátria” investindo contra autoridades legalmente constituídas, sempre em nome da defesa da cidadania, dos direitos humanos etc, etc,. Essa patriotada, tão típica a instituições senis que recusam a terapia da revitalização, consagra, em alianças como a da OAB e CNBB, o ranço de quem somente faz cortesia com o chapéu alheio. E na bacharelandia em que se tornou o Brasil nota-se inconstância e debilidade até na adoção do vocabulário: ora a linguagem usual é o truncado “ecomomês”, ora o substitui a retórica pomposa e camuflada do “bacharolês jurídico”.
Em se tratando da Ordem dos Advogados do Brasil, a máxima positivista de Conte esta francamente exposta. Quer dizer, a entidade está mais para “ordem e progresso”, o que significa a ordem em primeiríssimo lugar, e secundariamente o progresso dos seus representados. O que falta é os pés no chão, descobrir que somos, antes de mais nada, brasileiros, advogados ou não. E como o mar não esta para peixe, é fundamental no tratamento geriátrico da OAB revalorizar o profissional do direito na exata grandeza do seu tamanho: nem maior nem menor, apenas mais um trabalhador que para sobreviver tem muito a exigir de si mesmo.
Se a OAB não aceita críticas isso é bastante freqüente em quem pós graduou-se em criticar. Afinal, não por mera coincidência mais de 60% dos parlamentares brasileiros são bacharéis em direito, e também eles via de regra desconhecem a crítica enquanto ciência, rebaixando-a ao nível de redes de intrigas. Justamente em nome da lisura é que se tem cometido o descalabro moral da nossa sociedade, quando respaldadas num incerto conceito de tradição, instituições várias fazem ouvidos moucos ao rifão de domínio público - “se tempo de casa fosse experiência burro seria dono de olaria”.
Não raro advogados buscam na comparação com a classe médica uma improvável justificativa para o seu reconhecimento enquanto profissionais. Se os médicos “ganham bem”(o que nem sempre é verdade), por que também não eles? É o próprio causídico assumindo a sua “inferioridade”, frustrado, pois quando ainda criança (e brasileiro, somente) acostumou-se com a falsa idéia de que a Medicina era curso da burguesia, e que Direito o curso do plebeu. Não é assim? Então por que papai, mamãe, vovô e vovó querem o filho, o neto formando um “promissor juiz, um brilhante promotor”? não é pelo imaginado “status” dessas carreiras?! O advogado quer ser tratado por “Dr.”, sem ao menos diferenciar credencial de real conhecimento adquirido. Pois, não é preciso ser diplomado em nada para ser “Doutor Honoris Causa”, distinção conferida aos que possuem sabedoria, independente de sua formação regular.
E a OAB, assentada na empáfia do “doutorismo” acadêmico, nada enxerga além do seu próprio nariz; quando muito o que você é a sua narcisista imagem refletida no lago da insensatez. Porém, esse comportamento em nada é surpreendente, ao contrário, em tudo condiz com o perfil da cultura brasileira, em que o deslumbramento pelas aparências está acima do bom senso e do racional.
Sócrates preferiu tomar cicuta quando teve oportunidade de um “sincero” arrependimento. Não sou socrático, e não engolirei goela abaixo sanção alguma vinda de quem eu não reconheça como meus representantes. Este país ainda tem uma Constituição, e ela é superior às veleidades corporativistas da OAB. Os “prepostos” da entidade em suas subsecções devem responder pela instituição; se algo não vai bem cá embaixo, algo vai muito mal lá em cima. Finalmente, prestigiar a entidade é preferir “ordem” como sinônimo de método e preterir “Ordem” como classe de honra instituída por governo supremo. Prestigiar a OAB é propugnar uma ORDEM COM PROGRESSO.
(Marcus Moreira Machado)
SEGUNDA-FEIRA, 8 DE FEVEREIRO DE 2010:"PRIVATIVO"
Que a recessão e o desemprego são um fenômeno mundial todos sabemos. Que as conseqüências desse fenômeno repercutem em forma de formidável catástrofe social nos países já debilitados por gigantesca inflação, como é o nosso caso, muito mais que saber, certamente nós brasileiros amargamente experimentamos em nosso cotidiano.
Soluções que em nada contribuem para extirpar da economia nacional o veneno que corrói o nosso poder aquisitivo, essas nos são apresentadas de quando em quando, ou melhor, de eleição em eleição. Contudo, se nada e nem ninguém consegue a medida eficaz, é porque não existe nenhuma disposição para tal, quer dizer, não se pretende mexer em estruturas já sedimentadas na política econômica do país, sempre vítima de deformações no tocante à geração e distribuição das suas riquezas.
Aqui, o discurso do ex-ministro Hélio Beltrão ainda faz eco: "Forte, no Brasil, além do próprio Estado, só existe o capital estrangeiro, salvo honrosas exceções". Obviamente, os reflexos dessa distorção se fazem sentir sempre que se considere não ser a distribuição de renda um fato posterior à produção de riquezas, em que "a organização do próprio processo produtivo determina a forma como a riqueza produzida se distribui entre salários e lucros". O que, então, se verifica é a desarmonia entre capital e trabalho, naquilo que é considerado "excedente da produção".
É inegável que "o crescimento da economia - em qualquer país - pode dar origem à maior distribuição ou maior concentração da renda, segundo o padrão de acumulação existente". E se, imparcialmente, identificamos o padrão adotado na economia brasileira, imediatamente constatamos que "as fortes desvalorizações monetárias, sucessivas, teoricamente destinadas a devolver o valor real à moeda e a estimular as exportações, na realidade só estimulam a concentração interna de capitais e propiciam a absorção das empresas nacionais por parte dos que chegam de fora".
Mão-de-obra excepcionalmente bem qualificada, predomina a não participação do trabalhador no processo fabril, impossibilidade conseqüente do seu mau desempenho já adquirido em sua básica formação profissional. Essa ausência de atributos, uma constância jamais contestada por sindicato algum, acarreta a "dispersão salarial ao nível da classe trabalhadora" que, por sua vez, "não contraria o processo de concentração da renda, que se nutre da expansão excedente". As lideranças sindicais, insensíveis, protestam, dessa forma, sempre a conseqüência, nunca a causa, pois o que deveria estar em discussão é a qualidade de vida dos funcionários, uma decorrência imediata do seu melhor ou pior desempenho, a ocasionar maiores ou menores salários, sempre como desdobramento de sua maior ou menor intervenção naquele processo de concentração da renda, a possibilitar, então, a maior ou a menor grandeza salarial.
O dilema entre o capital e o trabalho em nações de economia frágil como é a nossa tem causa naquilo que Paulo Freire chamou de "migração do capital" para os países subdesenvolvidos, onde encontra condições excepcionais de valorização. Assim, observa Freire, a cada período mais ou menos longo de estagnação e de crise o capital se lança ao assalto de novas áreas fracamente ou não de todo integradas à sua esfera de dominação; isto lhe assegura um novo período de expansão e de euforia que se opõe à tendência anterior. Isso é o que, de resto, se verifica em toda a América Latina, onde o sistema produz muito menos do que necessita consumir, resultando a inflação desta "impotência estrutural". Não temos, de fato, excedente de produção, temos sim é um absurdo baixo consumo interno. Aquele almejado equilíbrio na balança comercial, ocasião em que promove-se a harmonia entre importação e exportação, é entre nós de todo desconhecido, porque aqui os tentáculos de um Estado burocrático e todo-poderoso subtraem à nação o seu direito à sanidade.
Como não temos estadistas e sim "corretores" nacionais, no Brasil não se confere a devida atenção ao conceito do celebrado economista John K. Galbraith: "A vida econômica e política é a matriz na qual cada parte está interligada às demais e todas se movimentam em conjunto". Se não temos quem efetivamente represente os intersses e reclamos do consumidor mais simples é porque "na moderna comunidade industrial, a voz dos ricos, que inclui, notadamente, a voz das diretorias empresariais, sendo tão bem falante, via de regra é ouvida como representando a voz das massas".
Desbancar os oligopólios é desbancar o próprio governo, pois que a grande empresa tem um poder mais subjetivo, no entanto mais importante, justamente pela pressão que exerce nos governos de uma forma geral. "Advogados-estadistas" garantem, através de "lobbys" o atendimento dos interesses empresariais. O mesmo não se dá com o que se julgou denominar "classe trabalhadora", desprovida da necessária articulação política para o confronto nesse "cabo de guerra" em que se tornou a política econômica brasileira. Ao contrário disso, a sua representação se faz por meio de pessoas despreparadas para negociações, oriundas, muitas vezes, do mesmíssimo sindicalismo incipiente e anão que insiste em manter no confronto a sua atitude inconformista.
(Marcus Moreira Machado)
DOMINGO, 7 DE FEVEREIRO DE 2010:"FAMÉLICO"
O Estado brasileiro decididamente não tem cumprido o seu papel democrático. Nele o bem-estar individual não é prioridade porque a ditadura política sobreveio a econômica, gerando o lamentável fenômeno social da fome.
Já Lin Yutang discernia as razões de um regime a consignar os objetivos deste ou daquele governo no panorama mundial: "Não se pode negar que do ponto de vista do Estado, organizado para a guerra e para a conquista, o totalitarismo tem tudo o que se diga a seu favor, mas do ponto de vista do indivíduo como a meta final visada pela civilização, e para o propósito de fluir as bençãos ordinárias da vida, ele não tem nada que se diga em seu apoio".
O Brasil, no caso, nem Estado tem, pois que , subjugado, é satélite artificial a orbitar na economia mundial voltada para o máximo lucro. "Nestes últimos anos, a era um tanto brutal da luta pelo lucro sem consideração pelo próximo vem se modificando, cada vez mais rapidamente, em direção a outra era social, na qual a liberdade, tanto política com econômica, começa a ser considerada como um direito inalienável de todo ser humano", ponderou Josué de Castro em seu magnífico ensaio "Geopolítica da Fome". Nosso país parece não ter sentido ainda a transição para a modernidade, onde a superação do tabu da fome assegure ao brasileiro a superior condição que deveria ter sobre os institntos. Não há que se falar, então, em Estado, quando nem se quer dominamos o problema comum a qualquer espécie sobre a terra, racional ou não, - a fome.
É o mesmo Josué de Castro quem adverte: "Foram fatores de natureza econômica especial que esconderam aos olhos do mundo feias trajédias como a da China, onde, durante o século XIX, cerca de 100 milhões de indivíduos morreram de fome, por falta de um punhado de arroz, ou como a da Índia, na qual 20 milhões de vidas humanas foram destruídas por esse mesmo flagelo, nos últimos 30 anos do século passado."
Que fatores na economia podem determinar a rendição do ser humano à barbárie da fome? Pois, vejamos. No presente século, em nome dos princípios da boa administração empresarial, a visar a maximização de seus lucros, os oligopólios, através de extensa multiplicidade de contratos particulares dividiram o mundo em países desenvolvidos e subdesenvolvidos, conforme bem observou Kurt Rudolf Mirow, também ele uma vítima do que denominou "A Ditadura dos Cartéis". Ao Brasil faltou disposição em recusar o jogo que lhe foi imposto pela ordem econômica mundial, ditada segunda as normas restritivas dos cartéis. É oportuno verificar que "com a liquidação proposital de sua própria estrutura industrial, que os outros países cuidadosamente preservaram, o Brasil entregou seu destino as mãos de pessoas cujos os interesses de certo não coincidem com os seus e , vivendo há mais de 11.000 km de distância, comandam gerentes locais das corporações chamadas multinacionais os "local white help" brasileiros, e decidem a sorte e o bem-estar de nosso povo".
Então, é de se perguntar: quem ou o quê governa o Brasil? o Brasil é de fato governado ou é apenas administrado?
Vivemos constantemente ao senso comum, num reconhecível paradoxo: somos a nona economia do mundo, mas padecemos no estigma da fome. Contraditoriamente, à uma incipiente democracia interna sobrepõe-se um inequívoco "totalitarismo"multinacional. Aqui o favorecimento às corporações estrangeiras submeteu o país a execrável dependência, rompendo com o desenvolvimento auto-sustentado, outrora verificado, em que, por esforço próprio, indústrias sob o controle nacional fundamentaram a prosperidade nacional.
O escuso mundo dos interesses econômicos, a privilegiarem minorias dominantes, oculta as razões mais fortes da fome no planeta. A produção, a distribuição e o consumo do produtos alimentares, processando-se indefinidamente como puros fenôminos econômicos respondem mais positivamente aos exclusivos interesses financeiros dessas minorias. Mas, contrário disso, são, antes, fenômenos de alto interesse social, a merecerem especial cuidado e tratamento no princípio do bem-estar coletivo.
A manipulação da economia é hoje poderosa a arma na desestabilisação de regimes políticos, mais eficaz que a guerra convencional. O poder de fogo dessa arma moderna reside "utilização de níveis de preços inflacionários acordados" contra os que se "opõem aos anseios do grande capital internacional, organizado sob a forma rígidos cartéis".
Condicionar, pois, a emacipação econômica do Brasil (no que diz respeito ao combate à inflação) a mera boa vontade das partes envolvidas no processo de produção e de consumo é desprezar a necessidade de conhecimentos científicos na explicação do funcionamento da economia internacional, articulada através dos oligopólios. Desconhecer essa realidade é exigir otimismo de quem de início já joga pra perder.
(Marcus Moreira Machado)
SÁBADO, 6 DE FEVEREIRO DE 2010:"TRUÃO NA CORTE"
Longe muito longe daqui, numa terra muito distante, havia um castelo e uma princesa. Não, não havia nenhum rei. Não que ele tivesse morrido subitamente. Em verdade, muito pouco se sabia sobre o rei, apenas era certo que um dia, desgostoso com os seus súditos, resolvera partir. Ficara a princesa, não porque o monarca quisesse garantir um eventual retorno, mas sim em razão de à época estar ela acometida de grave enfermidade, impossibilitada, pois, de seguir com o pai.
Muitos de vocês perguntarão: o rei teve coragem de, por um aborrecimento qualquer, deixar a própria filha, e ainda doente? E a rainha, cadê ela? Toda história do gênero tem uma. Existira sim uma rainha. Preferira ela, no entanto, permanecer no castelo, quando o seu amado esposo desistira de ser rei, imaginando que, passado aquele momento de enorme aborrecimento, ele voltaria para a família e para os súditos, pois quem iria governar melhor do que havia governado aquele monarca?
Quanto à princesa, podem vocês imaginar que a tristeza do regente não era em nada pequena, a ponto de abandonar filha, esposa, cetro e majestade. O real motivo dessa drástica atitude, eis o que de fato todos querem conhecer. Até mesmo a rainha, pessoa bondosa, porém sempre muito ocupada em fazer caridade que tempo não dispunha para ouvir os reclamos do consorte, ignorava aquela mágoa. Comenta-se que o rei insistia em professar idéias libertárias, abominando a monarquia, o que teria provocado a indignação e a repulsa do seu séquito que por gerações, por ascendentes e descendentes jurara fidelidade à Coroa e amor à dinastia. E que, já tomados pelo ódio, passaram então a desprezar o notável, porque queriam ter a quem obedecer e o monarca não desejava ser obedecido por ninguém, apenas pretendia o respeito mútuo entre cidadãos. Porém, cidadania era para a plebe algo tão inóspito quanto a abundante e lúgubre floresta que do castelo já se avistava.
A ideologia do regente... Ah! não interessa a ninguém. Certamente vocês estão muito mais interessados nos probleminhas domésticos da realeza, se a princesa ainda era virgem, se a rainha não traía o rei, se algum conselheiro era dado aos maus hábitos de ... Não é mesmo?
Embora numa terra muito distante da nossa, em nada somos diferentes da vidinha daqueles súditos. Preferimos, também, o fascínio de um mágico poder a nos governar com tributos e promessas, com promessas e caridade, com caridade típica da realiza. Mas, essa é uma outra história, é a nossa história que, por assim ser, nunca nos tem interessado.
Então, voltemos ao castelo.
Longe de lá, o regente nada mais regia do que a sua própria vida, cansado que estava de reger a ignorância do seu povo. Anônimo, o monarca delirava em sonhos de fantástica liberdade, propagando entre os gentios a concepção de um governo sem senhores nem vassalos. Por onde passasse, pregava os ensinamentos da humanização de todos os povos de todas as nações. A princípio, conseguira arregimentar alguns seguidores, todos convictos da prosperidade inerente à nova ordem. No entanto, em vão clamaram. A obstinação da excelsa maioria para com a idolatria fez perecer discursos e sepultar quaisquer ideais de fraternidade. Pior, bem pior, foi a derradeira aparição do "rei": já proscrito, foi caçado e morto, condenado por anarquismo.
A história tristeza alguma contém. Não é necessário imaginarmos um rei, uma rainha e uma princesa em meio a uma narrativa de ignaro séquito. Cá entre nós isso nos é bastante familiar. E é justamente essa familiaridade que nos aproxima do lendário, muito mais do que possa servir como severa advertência. Ainda por muitos e muitos anos acreditaremos em fadas, duendes, gnomos, reis e políticos, porque o fantástico é surpreendentemente mais crível. Ainda sonharemos com a liberdade mais próxima de um gênio da lâmpada de Aladin. E preferiremos viajar num mágico tapete para conhecer as riquezas saqueadas por um Ali Babá qualquer e a sua corja safada; ou, então, esperaremos um Robin Hood voltar, certos de que ele é um benfeitor que a todos nos alimentará e vingará de um vago e indefinido mal capitalista. Ainda insistiremos na falsa idéia de uma ultrajante humildade, no dualismo do "ter" e do "ser".
Repetidamente ouvimos histórias que, embora sejam as de outros povos, em tudo se identificam com o nosso imaginário.
Talvez isso se explique com a oportuna observação de que ainda não tenhamos tirado a fantasia, porque o que mais gostamos nessas histórias são os nossos próprios personagens - os bufões, mal pagos para fazer pilhéria até mesmo da própria sorte.
(Marcus Moreira Machado)
SEXTA-FEIRA, 5 DE FEVEREIRO DE 2010:"REVEZAMENTO"
O brasileiro não tem predileção partidária, não possue necessariamente convicção ideológica propriamente dita; brasileiro quando vota, vota na esperança - uma esperança momentânea, mais inclinada à possibilidade de um consumismo imediato porque brasileiro quer esquecer o passado, mas não se incomoda quase nada com o futuro; ou melhor, o seu futuro é o próximo eletrodoméstico, a próxima "suave" prestação, o mais novo status de quem compra freezer, mesmo que não tenha mais de quinhentas gramas de carne moída para guardar, quer dizer, congelar. Aliás, o que parece é que brasileiro gosta bastante de congelamento - o, político o econômico e … o da carne moída!
Na falta de BMW (que alguns "novos ricos" insistem em chamar BM "VÊ"), uma nova eleição sucessiva a um novo plano econômico ( ou seria um econômico plano?), faz renascer das cinzas o facho adormecido dessa esperança que já imprestou ao brasileiro o seu sobrenome, quer dizer, "brasileiro, profissão esperança". E, de voto em voto, expresso tácito, nulo, branco ( porque essas também são manifestações de "esperança", esperança de que protestando a coisa toma jeito), voto ininteligível de intenções de voto que não conseguiram traduzir-se em gestos de votos, dada a imperfeição dos garranchos ( mentira, os garranchos são sim perfeitos) que acabam por eleger o analfabetismo em primeiro turno, e com um invejável percentual de vantagem sobre os outros votos, ou sejam, os votos dos semi-analfabetos ( ou seriam semi-alfabetizados; será a mesma coisa?)…Mas, então, de voto em voto, o brasileiro reascende a secreta esperança ( muito mais secreta de que o próprio voto, que esse um conhece o do outro, já que todo mundo faz uma questão danada de "explicar" o seu voto, numa tentativa nula de parecer consciente para anular a esperança alheia. Complicado, não?) de subir ao "pódium" do primeiríssimo lugar. Não é todo eleitor que gosta de Jazz e Ballantine's, ou já ouviu falar de Bourbon Street; assim como nem todo brasileiro-eleitor aprecia a buchada como iguaria gastronômica; mas, ter colaborado com o processo democrático das eleições livres ( livres de muitas dificuldades) já é quase sinônimo de ser também um candidato e, o que é melhor, um candidato eleito.
O nosso nome não é Enéas, não é FHC, não é ACM e nem IPC ou URV; o nosso nome, de agora em diante, é J.P.S. e S.D.B. - o nosso nome é "cult", de gente famosa e super dotada, é Jean-Paul Sartre e é Simone de Beauvoir.
E por que não? Somos eleitores ecléticos. Tanto somos que até em meio a esse sincretismo religioso que nos é peculiar já fazemos, muito antes de qualquer eleição, promessas solenes, nos obrigando para com divindades várias, promessas que depois de cumpridas se tornam "ex-votos".
Agora, tanto faz, tanto fez, a esperança "existencialista” de Havre confunde-se com "A Imaginação" e com "O Imaginário" do mestre francês - mestre do presidente, guru do presidente, que também gosta de salada verde com queijo roquefort. Afinal, quem se lembra daquele filme "Como era gostoso o meu francês"? Nele, os aborígenes, os ameríndios, os nativos do Brasil degustavam um saboroso espécime francês; pois, faz tempo somos "cult", do paladar ao … paladar! Faz tempo que deglutimos goela abaixo temperos exóticos, crendo, talvez, na aquisição de força hercúlia pelo consumo dos cérebros privilegiados; mas, já evoluídos não devoramos o inimigo, antes, o elegemos chefe da tribo, pajé da tribo, encantador de serpentes, para depois saboreá-lo aos poucos, de mandato em mandato.
E, o melhor de tudo é essa sensação de que há um terceiro turno: o momento dos cento e quarenta e nove milhões de eleitores que somos votando dessa vez em nós mesmos, por extensão do voto anterior, este dado ao candidato. Explica-se: não somos cento e cinqüenta milhões, porque nem tudo é povo, e que não é já garantiu a sua vaga no concreto da esperança; nos outros ficamos ainda no vazio da esperança que é a última que mata.
A certeza de que fizemos uma boa escolha, a convicção de que no terceiro mundo há um terceiro turno está mais intimamente vinculada à legenda suprapartidária dos magazines, quando cédulas cedem lugar a duplicatas mil, nas promoções da vida inteira. Aliás, quantas reencarnações serão necessárias para plena quitaçãos da felicidade à prazo? Pois, carnês são neste terceiro turno a única certeza do paraíso terrestre; e a panfletagem das lojas dão conta de toda sorte de liquidação. Compre, compre, compre tudo o que puder, e dê risada dos gringos norte-americanos, pensando que eles estão na pior porque o dólar esteve cotado a 0,82 centavos de real. Depois, converse com seu novo liqüidificador da última liquidação no atacado da sua incapacidade de consumir o que efetivamente necessita, pergunte ao microondas que estoura pipocas e os seus miolos ( se é que tem algum) porque e como os americanos do norte lutam na Coréia, lutam no Haiti lutam no Iraque e lutam … Aonde mais?
Ora, seu eleitor-consumidor desse Brasil varonil, indague do seu micro-célebro eletrônico de penúltima geração ( os nossos japoneses são melhores que os brasileiros dos japoneses. Complicado, não?) por que é que os latinos são utilizados como personagens da bandidagens dos guetos nova-iorquinos, nas películas do Tio Sam, quase sempre consumidas pelos próprios latinos.
Mas, sobretudo não perca a esperança, pois o verde, dizem, é "esperança" resta saber qual deles: o ecológico, aparentemente lógico, ou qualquer sinal de trânsito.
No terceiro turno não haverá feriado.
(Marcus Moreira Machado)
QUINTA-FEIRA, 4 DE FEVEREIRO DE 2010:"IRREALISMO"
Rendidos estamos. Não temos mais que uma cultura de “almanaque”, consagrando o banal, ritualizando fórmulas decadentes de salvação individual ou coletiva. Somos tão descartáveis quanto as informações que consumimos todos os dias.
Valorizar a cultura seria, no mínimo, medida profilática, a prevenir males cruciais como a fome, a miséria, atualmente combatidos quixotescamente como causa da violência, origem da desagregação social, quando não são mais que reflexos de caos anterior.
Quando se trabalha com fenômenos sociais não se pode esperar a precisão da informática ou a certeza dos laboratórios; em sociedades múltiplos aspectos concorrem para maior possibilidade de dúvidas do que para probabilidade de acertos; o organismo social, quando doente, requer mais do que boa vontade, mais que otimismo, carece de conhecimento, e conhecimento prático. O que se verifica em ciências políticas e econômicas no Brasil é justamente o distanciamento da realidade mais óbvia. Opiniões diversas são apresentadas como “sui gêneris”, impressionando pelo ineditismo, mas todas por demais fantásticas para poderem ser pragmáticas. Talvez, por que não, não se queira mesmo resolver coisa alguma. Então, buscar alternativas, sempre, seja forma de ocultar a premeditação no desinteresse político; pois quem não pode ou não consegue crer na hipótese do “lucro” garantido pela miséria alheia?
No labirinto das teorias governamentais estamos a esperar um corajoso e apaixonado Teseu, a desafiar o Minotauro pelo amor à Ariádne. E como quem não tem nada briga por pouco, a violência fermenta a convulsão social em barbárie coletiva, por ninharias, por quinquilharias que em nações civilizadas não passam de lixo.
Estamos também virando lixo! E o que é pior: não degradável. Vermes vorazes, encontramos na podridão da cultura brasileira, amesquinhada e aviltada, o putrefato alimento de nossas sórdidas paixões. Alguns já marginais, outros ainda marginalizados, em breve seremos todos párias; reduzidos a ínfima casta, excluídos da sociedade, devoraremos uns aos outros em antropofagia de “guerreiros” modernos.
1984 já passou. Orwell talvez não soubesse que na Revolução dos Bichos os brasileiros não seriam metáforas, mas os próprios bichos.
O esforço de alguns (não poucos!) homens para derrubar outros e subir pelos seus cadáveres traduz a profunda angústia por que passamos, mergulhados no canibalismo e nos atos selvagens da modernidade social, matando e sendo mortos, odiando e sendo odiados, subjugados, enfim, à lei não escrita, porém impiedosa da sobrevivência.
Se ao menos acreditassem os nossos dirigentes no ciclo-reflexo de causa e efeito, poderiam os homens de governo renunciar à trama de atividades direcionadas a garantir privilégios de grande farsa, consagrando, então, todo o seu tempo e energia exclusivamente na reabilitação do país. No entanto, é forçoso admitir que nem mesmo a lei do Karma (a cada ação corresponde uma reação) prospera no Brasil. Mais contribuintes que cidadãos, somos vitimados por formidável desestabilização social, onde não há acordo entre “técnicos” econômicos e a legião de “devedores” por eles afetados, ferindo-se o mais elementar princípio de democracia. O mecanismo de manipulação abusiva dos vários índices que têm regulado a vida financeira do Estado influi decisivamente na saúde do organismo social, sem que se considere não haver causa que possa ser desvinculada de seus efeitos.Ponderar os efeitos reais das ações pretéritas, entender os seus resultados acumulados, será a maneira mais razoável de corrigir a rota e prognosticar as formas de futuras atividades. No mais, necessitaremos do pessimismo como um alerta permanente.
(Marcus Moreira Machado)
QUARTA-FEIRA, 3 DE FEVEREIRO DE 2010: "A PRIMAZIA DO CAOS"
Caos (do grego Χάος) é, segundo Hesíodo, a primeira divindade a surgir no universo, portanto o mais velho dos deuses. A natureza divina de Caos é de difícil entendimento, devido às mudanças que a idéia de "caos" sofreu com o passar da épocas.
Inicialmente descrito como o ar que preenchia o espaço entre o Éter e a Terra, mais tarde passou a ser vista como a mistura primordial dos elementos. Seu nome deriva do verbo grego χαίνω, que significa "separar, ser amplo", significando o espaço vazio primordial.
O poeta romano Olvídio foi o primeiro a atribuir a noção de desordem e confusão à divindade Caos. Todavia Caos seria para os gregos o contrário de Eros.Tanto Caos como Eros são forças geradoras do universo. Caos parece ser uma força mais primitiva, enquanto Eros uma força mais aprimorada. Caos significa algo como "corte", "rachadura", "cisão" ou ainda "separação", já Eros é o princípio que produz a vida por meio da união dos elementos (masculino e feminino).
Filhos
Os filhos de Caos nasceram de cisões assim como se reproduzem os seres unicelulares. Nix (Noite) e Érebo(Escuridão) nasceram a partir de "pedaços" do Caos. E do mesmo modo, os filhos de Nix nasceram de "pedaços" seus; como afirma Hesíodo: sem a união sexual. Portanto a família de Caos se origina de forma assexuada.
Se Caos gera através da separação e distinção dos elementos e Eros através da união ou fusão destes, parece mais lógico que a idéia de confusão e de indistinção elemental pertença a Eros. Eros age de tal modo sobre os elementos do Mundo, que poderia fundi-los numa confusão inexorável. Assim, seu irmão Anteros equilibra sua força unificadora através da repulsa do elementos.
Caos é então uma força antiga e obscura que manifesta a vida por meio da cisão do elementos. Caos parece ser um deus andrógino, trazendo em si tanto o masculino como o feminino. Esta é uma característica comum a todos os deuses primogênitos de várias mitologias.
É freqüente, devido à divulgação das idéias de Ovídio, considerar Caos como uma força sem forma ou aparência, isso não é de todo uma inverdade. Na pré-história grega, tanto Caos como Eros eram representados como forças sem forma, Eros era representado por uma pedra.
Outra problemática é considerar Caos como a pai-mãe de Gaia, Tártaro e Eros, quando é somente genitora de Nix e Érebo. Na verdade ela seria "irmão-irmã" de Gaia, Tártaro e Eros.
Segundo o poeta romano Higino, Caos seria masculino e possuiria uma contraparte feminina chamada Calígena "a Névoa primordial".
(Marcus Moreira Machado)
TERÇA-FEIRA, 2 DE FEVEREIRO DE 2010:"O DIVINO"
Historicamente, não é possível definir qual foi a primeira tribo a manifestar uma idéia de divindade. As primeiras dessas concepções teriam surgido nos períodos Paleolítico e Neolítico, e teriam sido manifestadas pelo sentimento humano de um vínculo com a Terra e com a Natureza, os ciclos e a fertilidade. Contudo, os escritos mais antigos até hoje encontrados referem-se às concepções vindas das religiões suméria, védica e egípcia, as quais surgiram por volta de 3600 a.C..
No intuito de criar explicações para a existência dos elementos e dos seres da natureza, bem como para conhecer o sentido dos fenômenos naturais (a tempestade, o vento, o dia e a noite, as estações, etc.), os povos e tribos da antiguidade conceberam diversas divindades que, no mais das vezes, passaram a ter sentimentos e emoções idênticas às dos humanos. Daí derivaram os rituais, cerimônias e sacrifícios, que tinham como objetivo agradecer as benesses enviadas por essas divindades ou aplacar sua ira, que castigava a humanidade com alguma calamidade.Daí, algumas antigas citações, em torno da 'sagração' de um pássaro:
"Existe outro pássaro sagrado, também, cujo nome é fénix. Eu mesmo nunca o vi, apenas figuras dele. O pássaro raramente vem ao Egito, uma vez a cada cinco séculos, como diz o povo de Heliópolis. É dito que a fénix vem quano seu pai morre. Se o retrato mostra verdadeiramente seu tamanho e aparência, sua plumagem é em parte dourado e em parte vermelho. É parecido com uma águia em sua forma e tamanho. O que dizem que este pássaro é capaz de fazer é incrível para mim. Voa da Árabia para o templo de Hélio (o Sol), dizem, ele encerra seu pai em um ovo de mirra e enterra-o no templo de Hélio. Isto é como dizem: primeiramente molda um ovo de mirra tão pesado quanto pode carregar, então abre cavidades no ovo e coloca os restos de seu pai nele, selando o ovo. E dizem, ele encerra o ovo no templo do Sol no Egito. Isto é o que se diz que este pássaro faz." - Heródoto.
"E a fénix, ele disse, é o pássaro que visita o Egito a cada cinco séculos, mas no resto do tempo ela voa até a Índia; e lá podem ser visto os raios de luz solar que brilham como ouro, em tamanho e aparência assemelha-se a uma águia; e senta-se em um ninho; que é feito por ele nas primaveras do Nilo. A história do Aigyptos sobre ele é testificada pelos indianos também, mas os últimos adicionam um toque a história, que a fénix enquanto é consumida pelo fogo em seu ninho canta canções de funeral para si" - Apolônio de Tiana.
"Estas criaturas (outras raças de pássaros) todas descendem de seus primeiros, de outros de seu tipo. Mas um sozinho, um pássaro, renova e renasce dele mesmo - a Fénix da Assíria, que se alimenta não de sementes ou folhas verdes mas de óleos de bálsamo e gotas de olíbano. Este pássaro, quando os cinco longos séculos de vida já se passaram, cria um ninho em uma palmeira elevada; e as linhas do ninho com cássia, mirra dourados e pedaços de canela, estabelecida lá, inflama-se, rodeada de perfumes, termina a extensão de sua vida. Então do corpo de seu pai renasce uma pequena Fénix, como se diz, para viver os mesmos longos anos. Quando o tempo reconstrói sua força ao poder de suportar seu próprio peso, levanta o ninho - o ninho que é berço seu e túmulo de seu pai - como imposição do amor e do dever, dessa palma alta e carrega-o através dos céus até alcançar a grande cidade do Sol (Heliópolis, no Egito), e perante as portas do sagrado templo do Sol, sepulta-o" - Ovidio.
(Marcus Moreira Machado)
SEGUNDA-FEIRA, 1 DE FEVEREIRO DE 2010: "PÁSSAROS E SAGRAÇÃO"
O poeta persa sufista Farid al-Din Attar, no livro A Conferência dos Pássaros, de 1177, descreve a fênix:
"Na Índia vive um pássaro que é único: a encantadora fênix tem um bico extraordinariamente longo e muito duro, perfurado com uma centena de orifícios, como uma flauta. Não tem fêmea, vive isolada e seu reinado é absoluto. Cada abertura em seu bico produz um som diferente, e cada um desses sons revela um segredo particular, sutil e profundo. Quando ela faz ouvir essas notas plangentes, os pássaros e os peixes agitam-se, as bestas mais ferozes entram em êxtase; depois todos silenciam. Foi desse canto que um sábio aprendeu a ciência da música. A fênix vive cerca de mil anos e conhece de antemão a hora de sua morte. Quando ela sente aproximar-se o momento de retirar o seu coração do mundo, e todos os indícios lhe confirmam que deve partir, constrói uma pira reunindo ao redor de sí lenha e folhas de palmeira. Em meio a essas folhas entoa tristes melodias, e cada nota lamentosa que emite é uma evidência de sua alma imaculada. Enquanto canta, a amarga dor da morte penetra seu íntimo e ela treme como uma folha. Todos os pássaros e animais são atraídos por seu canto, que soa agora como as trombetas do Último Dia; todos aproximam-se para assistir o espetáculo de sua morte, e, por seu exemplo, cada um deles determina-se a deixar o mundo para trás e resigna-se a morrer. De fato, nesse dia um grande número de animais morre com o coração ensanguentado diante da fênix, por causa da tristeza de que a veem presa. É um dia extraordinário: alguns soluçam em simpatia, outros perdem os sentidos, outros ainda morrem ao ouvir seu lamento apaixonado. Quando lhe resta apenas um sopro de vida, a fênix bate suas asas e agita suas plumas, e deste movimento produz-se um fogo que transforma seu estado. Este fogo espalha-se rapidamente para folhagens e madeira, que ardem agradavelmente. Breve, madeira e pássaro tornam-se brasas vivas, e então cinzas. Porém, quando a pira foi consumida e a última centelha se extingue, uma pequena fênix desperta do leito de cinzas.
Aconteceu alguma vez a alguém deste mundo renascer depois da morte? Mesmo que te fosse concedida uma vida tão longa quanto a da fênix, terias de morrer quando a medida de tua vida fosse preenchida. A fênix permaneceu por mil anos completamente só, no lamento e na dor, sem companheira nem progenitora. Não contraiu laços com ninguém neste mundo, nenhuma criança alegrou sua idade e, ao final de sua vida, quando teve de deixar de existir, lançou suas cinzas ao vento, a fim de que saibas que ninguém pode escapar à morte, não importa que astúcia empregue. Em todo o mundo não há ninguém que não morra. Sabe, pelo milagre da fênix, que ninguém tem abrigo contra a morte. Ainda que a morte seja dura e tirânica, é preciso conviver com ela, e embora muitas provações caiam sobre nós, a morte permanece a mais dura prova que o Caminho nos exigirá".
Já a tradição cristã primitiva adoptava a ave fénix como símbolo da imortalidade e da ressurreição. É muito interessante que essa lenda da fênix compartilhe vários aspectos com a verdadeira história do nascimento, vida e ministério de Jesus Cristo. Vamos rapidamente revisar os pontos comuns:
1) A fênix vive em um ninho de Incenso. Em Mateus 2:11-12, vemos que os três magos trouxeram ouro, incenso e mirra como presente ao menino Jesus. Cada uma dessas substâncias tem um significado distinto um ministério de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. De acordo com o Comentário Bíblico de Defender, "O incenso indica a intercessão sacerdotal de Cristo pela humanidade". Portanto, dizer que a fênix vive em um ninho que contém incenso retrata um ministério do tipo messiânico pela humanidade, um ministério que envolve "intercessão" espiritual.
2) A fênix também tem mirra em seu ninho. "A mirra indica a futura morte de Cristo por toda a humanidade, para que possamos estar justificados diante de Deus, o Pai, com base na morte sacrificial de Jesus Cristo na cruz.". Novamente, vemos que a lenda da fênix contém outro significado do ministério messiânico.
3) Vemos que, após sua morte, a fênix ressurge para uma nova vida. Assim, ela retrata um terceiro tipo de ministério messiânico, pois também ressuscita.
Portanto, essa lenda tem similaridades com a vida e ministério de Jesus Cristo em três áreas criticamente importantes: sua intercessão espiritual, sua morte substitutiva por toda a humanidade e sua ressurreição.
(Marcus Moreira Machado)
sábado, 23 de janeiro de 2010
DOMINGO, 31 DE JANEIRO DE 2010: "ANCESTRAIS"
Dái-me os céus, se tenho
asas.
A sombra -eu projeto-
insignificante,
reduzida,
não é
ela mesma.
Não sou eu o tamanho desse pouco tempo.
Cá dentro, tenho aprisionada a imagem
da surpresa que assalta-me os sonhos
e me enternece
obrigando-me à crença dos seus hábitos.
"Isso te foi deixado
e ao berço dado não se nega moradia.
Viverás com os homens,
ainda que, vitimado pelo ódio,
a vingança te arruine em pedaços."
Eu tenho olhos,
dái-me luz.
Se forçado, sou companheiro das trevas,
é meu desejo livrar-me desse teto
que oculta os meus prazeres.
(Marcus Moreira Machado)
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